A decisão de iniciar uma relação sexual sem estar com desejo pode ser saudável quando parte de uma escolha livre, mas muda de sentido quando envolve medo, culpa ou obrigação. A sexóloga Chris Marcello diferencia o chamado sexo por compaixão da submissão à vontade do parceiro.
Para Marcello, uma pessoa pode aceitar a relação para cuidar do vínculo e proporcionar prazer, mesmo sem estar excitada naquele momento. Isso não significa fingir nem ignorar os próprios limites. O consentimento precisa continuar presente e pode ser retirado a qualquer momento.
Também é possível não querer penetração e ainda ter interesse em beijos, carícias ou outros contatos. O desejo responsivo pode surgir durante a intimidade, em resposta aos estímulos, mas ninguém deve se sentir obrigado a esperar que isso aconteça. Quando o corpo indica que não quer qualquer interação, essa decisão precisa ser respeitada.
A sexóloga sugere observar a origem da concessão: ela acontece por vontade de estar com o outro ou pelo receio de perder algo ao dizer não? Ceder ocasionalmente, de forma consensual e afetiva, pode ser saudável. Já a repetição sem desejo pode provocar desgaste, ressentimento e impacto na autoestima.
Intimidade além da penetração
Diferenças de libido podem ser administradas com outras formas de contato, como masturbação mútua, beijos demorados, banho juntos, massagens ou dormir abraçado. Para Marcello, ampliar o repertório do casal permite construir prazer sem reduzir o sexo à penetração ou à genitalidade.
A discussão também envolve a divisão de responsabilidades. Dados do IBGE referentes a 2022 mostram que as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas.
Na avaliação da sexóloga, a disponibilidade sexual não pode ser tratada como uma obrigação feminina quando a mulher está sobrecarregada com trabalho, casa, filhos e outras tarefas. A flexibilidade na cama precisa vir acompanhada de parceria fora dela, com compartilhamento das responsabilidades domésticas e parentais.
O limite, afirma Marcello, depende de autoconhecimento: reconhecer os sinais do corpo, entender quando o desejo pode aparecer e comunicar quando ele não está presente.








