O eleitor brasileiro dá sinais de cansaço com o confronto permanente entre os polos políticos, na avaliação de Gaudêncio Torquato. O professor Augusto Cury aparece como exemplo desse movimento: foi o único candidato considerado “nanico” a alcançar dois dígitos na pesquisa Nexus/BTG, com 11%.
Cury se apresenta como uma alternativa à polarização. Para ele, esse ambiente é uma “doença, um fator que adoeceu e dividiu o Brasil de forma psicótica e esquizofrênica”.
Torquato afirma que, há mais de uma década, a política nacional vem sendo reduzida a disputas entre esquerda e direita, lulismo e bolsonarismo, democracia e autoritarismo. Na avaliação do escritor, essa divisão não contempla as preocupações de quem enfrenta transporte lotado, filas no posto de saúde, preços altos, violência e insegurança no emprego.
Da divergência ao confronto
A divergência, segundo Torquato, faz parte da democracia e ajuda o eleitor a diferenciar projetos. O problema surge quando a disputa deixa de buscar soluções e passa a produzir inimigos. Nesse cenário, propostas são julgadas pela origem política, e não pelo conteúdo.
As redes sociais ampliam esse processo ao favorecer indignação, insultos e frases curtas. A ponderação circula mais lentamente, enquanto a agressão ganha alcance. Com isso, o debate público se transforma em grupos fechados, nos quais poucos escutam e quase ninguém admite rever posições.
O autor também afirma que dirigentes políticos exploram essa dinâmica porque é mais simples mobilizar o medo do adversário do que explicar como melhorar a educação, reduzir o déficit público, enfrentar o crime organizado ou elevar a produtividade. A polarização, nesse sentido, encobre contradições e substitui programas consistentes por disputas de identidade.
Para Torquato, o resultado é a troca da política pela torcida. Escândalos são relativizados quando envolvem aliados e ampliados quando atingem adversários. A ética passa a ser usada como instrumento de combate, com julgamentos diferentes para erros semelhantes.
O desafio para a eleição
A saturação, na análise do escritor, não elimina os polos. Militâncias organizadas e barulhentas continuam mobilizadas enquanto a hostilidade render votos, audiência, seguidores e poder. O grupo que busca normalidade política seria maior, mas menos ruidoso e organizado.
A eleição deste ano deverá mostrar se os candidatos compreenderam essa fadiga. Torquato avalia que a repetição das antigas batalhas pode mobilizar bases, mas terá dificuldade para alcançar quem quer discutir crescimento, empregos, controle de gastos, saúde, segurança e ensino de qualidade.
O eleitor, escreve o autor, quer saber como as propostas serão executadas, e não apenas ouvir promessas. Nesse cenário, candidatos capazes de apresentar metas, custos, prazos e resultados podem encontrar espaço sem apagar as diferenças políticas.
Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.









