Rio de Janeiro, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026
O jogo, o bastidor, o placar
Flávio ao lado de Mario Frias (à esq.), produtor do filme, Jim Caviezel, ator que interpreta Jair Bolsonaro, e Carlos Bolsonaro
								
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Brasil

Flávio Bolsonaro omitiu novo repasse de Vorcaro para filme do pai

Relatório do Coaf aponta pagamento de 1,6 milhão de dólares em setembro, e mensagens indicam possível nova parcela em outubro.

Breno Pires, de Brasília 01 Set 2026

5 min de leitura

Quando conversas comprometedoras de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, com Daniel Vorcaro vieram a público, o senador procurou a imprensa para apresentar sua versão. Em entrevista, ele tentou diminuir o peso de um áudio em que cobrava do banqueiro recursos para financiar Dark Horse, cinebiografia de seu pai. Já no fim da conversa, afirmou também que Vorcaro não destinava nenhum dólar ao filme havia meses, desde que as suspeitas sobre as fraudes do Master tinham sido reveladas. “Olha só. O último pagamento que ele fez [...] foi em maio de 2025”, declarou.

A afirmação, porém, não correspondia aos registros. Uma apuração publicada neste mês mostra que, em 16 de setembro de 2025, Vorcaro transferiu mais uma parcela de 1,6 milhão de dólares ao Havengate Development Fund, fundo americano responsável por administrar os recursos de Dark Horse. O valor exato foi de 1 milhão, 666 mil e 667 dólares. A informação aparece em um relatório do Coaf, órgão responsável pela fiscalização de operações financeiras. O documento indica que a parceria financeira entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro se estendeu por muito mais tempo do que o senador reconheceu.

O dinheiro foi enviado oito dias depois de Flávio cobrar do banqueiro as parcelas que estavam atrasadas. Com essa transferência, até então desconhecida, o montante remetido por Vorcaro para a cinebiografia de Bolsonaro subiu de 10,6 para 12,3 milhões de dólares. Pela cotação daquele período, a quantia correspondia a mais de 65 milhões de reais.

Há indícios, ainda, de que uma nova parcela possa ter sido paga após outra cobrança feita por Flávio. Na manhã de 22 de outubro, quando as gravações já estavam no terceiro dia, o senador voltou a mandar mensagens para Vorcaro. Às 8h54, escreveu: “Bom dia, mermão! Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” Nove minutos depois, reforçou a pressão: “Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.” Às 9h22, o banqueiro respondeu: “Deixa comigo irmão, vou ver agora.”

A cobrança teve resultado. Foram obtidos trechos inéditos de conversas por WhatsApp entre Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que participou da captação de recursos para o longa. Menos de 1 hora depois das mensagens enviadas por Flávio, Miranda perguntou ao banqueiro: “Consegue liberar as parcelas do filme?” Em seguida, completou com um emoji: “Se não vai parar tudo por lá 😐”. Vorcaro respondeu: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Miranda disse que avisaria os responsáveis e acrescentou que Flávio havia informado que ligaria para ele. O banqueiro pediu então que Miranda apresentasse suas desculpas a Flávio pelos “atrasos” nos pagamentos.

Caso essa outra transferência de 1,6 milhão de dólares tenha realmente sido feita, como afirmou Vorcaro, o total desembolsado pelo banqueiro alcançaria 14 milhões de dólares, ou 72 milhões de reais.

O acordo e as parcelas pagas

As informações conhecidas até o momento indicam que o entendimento entre o banqueiro e o candidato à Presidência previa pagamentos de 24 milhões de dólares. Com a transferência realizada em setembro, chegou a sete o número de parcelas reconhecidamente pagas por ordem de Daniel Vorcaro para atender às cobranças de Flávio Bolsonaro. A possível remessa de outubro representaria a oitava parcela.

Questionado sobre o motivo de ter omitido que sua relação financeira com Vorcaro praticamente atravessou todo o ano de 2025 e sobre o total desembolsado pelo banqueiro, Flávio Bolsonaro não quis responder. Sua assessoria afirmou que a pergunta deveria ser direcionada à produtora do filme, responsável por esclarecer se houve outros pagamentos. “Isso não é com a gente.” Mesmo depois de ser informada de que a nova parcela expunha uma declaração pública falsa do candidato, a assessora manteve a posição de que Flávio não precisava explicar o caso.

Não foi a primeira vez que o senador apresentou uma versão considerada falsa sobre Dark Horse. Em março passado, quando se tornou público que seu número de telefone constava na agenda de Vorcaro, Flávio afirmou a uma colunista que nunca havia mantido contato com o proprietário do Master. Depois, ao ser questionado sobre o motivo de o filme ter sido financiado por Vorcaro, reagiu dizendo que a informação era mentira e perguntando de onde ela havia sido tirada.

Na entrevista, Flávio também declarou que o Havengate era fiscalizado pela SEC, órgão americano equivalente à Comissão de Valores Mobiliários no Brasil. Essa informação também não procede. O senador afirmou, por fim, que o fundo havia sido encerrado assim que surgiram as primeiras suspeitas sobre os negócios de Vorcaro. Registros fiscais do Texas, no entanto, mostram que o Havengate segue ativo até hoje.

O caminho do dinheiro

A polícia investiga agora o trajeto considerado irregular dos recursos. O dinheiro não saía diretamente das empresas de Vorcaro e tampouco era depositado na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment llc, nos Estados Unidos, que seria o caminho esperado. Em vez disso, o banqueiro encaminhava os valores por meio do doleiro Antonio Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”. Ele é dono da Entre Investimentos e Participações e já se apresentou publicamente como especialista em “câmbio de saída, que é uma coisa mais arriscada”.

O destino das remessas era o Havengate, fundo instalado no Texas e administrado por Paulo Calixto. O advogado é especializado em imigração, não em cinema, e mantém amizade com Eduardo Bolsonaro, que também mora no Texas.

Como o Havengate fazia os repasses à produtora do filme, a investigação tenta esclarecer se todo o dinheiro realmente era aplicado na produção cinematográfica. Os investigadores apuram se uma parte dos recursos permaneceu no fundo ou terminou nas mãos de Eduardo Bolsonaro, que passou a viver nos Estados Unidos em fevereiro do ano passado. Por coincidência, esse foi o mesmo mês e ano em que Vorcaro começou a enviar ao Havengate as parcelas destinadas ao filme. A primeira remessa, de 2 milhões de dólares, foi feita em 13 de fevereiro de 2025.

Até agora, não existe evidência de que alguma parcela dos milhões enviados por Vorcaro tenha sido desviada para bancar a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. Ainda assim, os investigadores querem esclarecer melhor qual era a função desempenhada por ele na administração dos recursos. Quando o áudio de Flávio veio a público em maio passado, Eduardo diminuiu sua participação na produção. Em entrevista, afirmou somente que havia investido 50 mil dólares do próprio bolso no filme para assegurar a contratação do diretor, mas que o dinheiro tinha sido devolvido depois.

Na documentação americana do longa, entretanto, Eduardo aparece em alguns momentos como “produtor executivo” e, em outros, como “financiador”. A investigação busca determinar até onde ia seu controle sobre os valores mantidos na conta do Havengate. A Go Up foi questionada sobre o assunto, mas não ofereceu uma resposta objetiva. Na prática, o caso envolve duas caixas-pretas: a produção do filme e o fundo, conforme apontado na apuração.

Texto produzido pela Redação Arena em Foco com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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