O ex-operador, que hoje exerce a função de subsecretário de Segurança e Ordem Pública de Saquarema, já vinha indicando que pretendia entrar na campanha do antigo chefe.
O lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), realizado em 16 de agosto, na praia de Copacabana, contou com a presença de um personagem que parecia ter sido deixado no arquivo das antigas dores de cabeça da família: Fabrício Queiroz. Ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Queiroz surgiu abraçado ao senador durante o ato e fez questão de publicar o reencontro nas redes sociais.
A legenda escolhida para acompanhar a foto foi curta e enigmática somente para quem não acompanhou a política brasileira nos últimos anos: “22 BR”. Para os outros, a imagem não exigia grandes explicações. Tratava-se do retorno de um dos nomes mais ligados ao antigo escândalo das chamadas “rachadinhas” no gabinete de Flávio.
Queiroz, que hoje ocupa o cargo de subsecretário de Segurança e Ordem Pública de Saquarema (RJ), vinha dando sinais de que gostaria de participar da campanha do ex-chefe. Em Copacabana, decidiu não só comparecer, mas também posar para a foto. Afinal, se uma campanha presidencial pode começar falando em “mudança”, aparentemente também pode começar com o reencontro de velhos conhecidos.
Abraço novo, problema antigo
A fotografia rapidamente colocou Queiroz outra vez no centro do debate político. O ex-assessor foi apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como figura central do esquema investigado no antigo gabinete de Flávio na Alerj.
Em 2020, o MP-RJ apresentou denúncia contra Flávio e Queiroz por crimes como peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Conforme a acusação, caberia a Queiroz recolher parte dos salários dos servidores do gabinete.
O caso, porém, não chegou a ter uma avaliação definitiva sobre o mérito das acusações. Decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) invalidaram provas vistas como essenciais para a investigação, e o processo terminou arquivado. Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz sempre negaram qualquer irregularidade.
Desse modo, anos depois, um simples abraço em Copacabana foi suficiente para fazer a história retornar ao noticiário — sem operação policial, entrevista coletiva ou investigação nova. Uma fotografia cumpriu esse papel.
Clima de déjà vu
O ato que abriu a campanha de Flávio também ficou distante de repetir a dimensão das manifestações que Jair Bolsonaro havia protagonizado antes na orla de Copacabana. A mobilização foi classificada por veículos de imprensa e adversários como flopada ou menor do que o esperado.
Flávio fez críticas à política de segurança pública do governo federal, saiu em defesa do pai, que está em prisão domiciliar, e prometeu reduzir os gastos públicos.
Enquanto o candidato falava sobre o futuro do país, porém, a fotografia ao lado de Queiroz apontava para outra direção: o passado.
Era como se a campanha tivesse escolhido levar à estreia um pacote completo de nostalgia política. Bandeiras, discursos, defesa de Jair Bolsonaro e, para fechar o cenário, uma figura conhecida justamente por um dos capítulos mais incômodos da trajetória política de Flávio.
Queiroz ganhou notoriedade nacional depois que foram reveladas movimentações financeiras consideradas atípicas em sua conta pelo então Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O episódio avançou para uma investigação sobre a existência de um esquema de desvio dos salários de funcionários do gabinete de Flávio na Alerj.
A partir daí, seu nome virou uma espécie de palavra-chave involuntária sempre que o assunto envolve o passado político do senador.
Agora, ao voltar a aparecer abraçado ao antigo chefe exatamente no lançamento da candidatura presidencial, Queiroz contribuiu para criar uma cena difícil de ignorar.
Em vez de tentar manter o passado distante, a campanha começou levando-o para a areia de Copacabana — literalmente ao lado do candidato.
O abraço, ao menos, deixou uma certeza: para quem esperava uma campanha totalmente voltada ao futuro, o primeiro ato chegou acompanhado de uma dose considerável de lembranças.
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