SÃO PAULO — Depois de dez anos como profissional do sexo, Kamila encontrou nas redes sociais e nas mentorias um novo caminho profissional. Ex-atleta de muay thai, ela hoje ajuda mulheres do mercado do sexo a organizar a vida financeira e planejar a saída da atividade.
Antes de entrar na prostituição, Kamila competia e chegou a ser a quarta do mundo em 2014. Morou na Tailândia, mas voltou ao Brasil após uma cirurgia no joelho e passou a trabalhar como personal trainer. O dinheiro, porém, continuava curto.
Após uma briga com o namorado, procurou na internet um trabalho que permitisse pagar outro lugar para morar. Encontrou casas de massagem, enviou fotos pelo WhatsApp e foi aprovada. No dia seguinte, começou a trabalhar em uma casa próxima a Moema, em São Paulo.
A renda aumentou rapidamente. O que ganhava em um mês como personal trainer, conseguiu em cinco dias. No início, atendia de 12 a 15 clientes por dia. A casa cobrava R$ 200 por atendimento, divididos em R$ 100 para ela e R$ 100 para o estabelecimento.
Da prostituição à administração
Kamila imaginava que ficaria seis meses na atividade e enriqueceria. Trabalhou das 9h às 22h, criou metas financeiras e passou a viajar pela Europa, Ásia e Austrália. Ao longo de dez anos, também enfrentou situações difíceis com clientes, polícia e pessoas perigosas.
No último ano como profissional do sexo, começou a passar mal, teve problemas com o cheiro dos clientes e desenvolveu mania de perseguição. Como não queria mais atender, mas também não sabia viver fora daquele universo, comprou um bordel de um antigo responsável pela casa onde trabalhava.
A compra ocorreu em 2023. O estabelecimento tinha umas 50 mulheres, além de recepcionista, segurança, cozinheira e outros funcionários, em uma mansão no Morumbi. Kamila, no entanto, disse que sabia ser garota, mas não administrar. Quebrou em 2024.
Depois, foi para a Tailândia, onde passou um ano alugando apartamentos. Durante esse período, começou a publicar vídeos no TikTok como um diário. Um conteúdo sobre a imigração da Itália chegou a cerca de 1 milhão de visualizações.
Conteúdo e mentoria
O crescimento nas redes levou a uma parceria com Camila, profissional de marketing que morava na Espanha. As duas transformaram a trajetória de Kamila em um e-book, que vendeu 800 unidades no primeiro mês.
Kamila ampliou a atuação no YouTube, TikTok e Instagram, criou um site, passou a oferecer consultorias e desenvolveu mentorias. Também criou uma comunidade no Telegram, com cerca de 3 mil mulheres, e um grupo no WhatsApp com cerca de mil participantes.
A mentoria começou em dezembro e já alcançou cerca de 600 atendimentos. Hoje, Kamila faz de seis a sete por dia, principalmente para mulheres que trabalham fora do Brasil. Os encontros abordam países, documentos, custos de transporte e hotel, sites de anúncio, pagamentos, transferências, segurança, polícia e riscos criminais.
A proposta, segundo ela, é evitar a fantasia da prostituta milionária e incentivar planejamento financeiro, investimentos e compra de imóveis. Kamila também quer criar uma produtora para ajudar mulheres experientes a migrar para o digital e transformar conhecimento em conteúdo e projetos.
Ela se preocupa especialmente com profissionais que chegam aos 35, 40 anos e querem parar, mas não sabem qual caminho seguir. Em uma mentoria, atendeu uma mulher de 64 anos que trabalhou durante 30 anos na Espanha. Outra cliente fez um curso de fotografia e foi incentivada a seguir nessa área.
Para Kamila, deixar o trabalho sexual exige planejamento e não apenas uma interrupção. A experiência acumulada, afirma, pode ser transformada em consultoria, conteúdo ou outro projeto. Ela diz que não precisa apagar o que viveu para construir uma nova etapa.








