Mounia Orosemane voltou à passarela nesta segunda-feira (28), durante a semana de moda de Paris. Aos 76 anos, a modelo martinicana abriu o ato dedicado à alta-costura no desfile de verão 2027 da Matières Fécales, usando um vestido preto longo e volumoso. A apresentação reuniu 99 modelos não brancos na Place de la République.
Da Martinica à alta-costura
Nascida em 1959, em Saint-Esprit, na Martinica, Monique-Antoine Orosemane trabalhava no aeroporto da ilha antes de entrar na moda. Depois de ser contratada pela Air France e transferida para o aeroporto de Orly, em Paris, mudou-se aos 19 anos com o objetivo de se tornar comissária de bordo.
A carreira mudou quando ela atendeu Hubert de Givenchy no balcão de despacho de bagagens. O estilista se impressionou com a elegância da jovem, convidou-a para conhecer sua maison e, pouco depois, Mounia começou a desfilar para a marca. Naquele período, modelos negras ainda eram raras na alta-costura parisiense.
Ela passou a usar o nome Mounia, também chamado de Princesa Mounia. Em 1987, o apelido deu título à biografia escrita pela jornalista Denise Dubois-Jallais.
A musa de Yves Saint Laurent
Yves Saint Laurent conheceu Mounia em um desfile de Givenchy e a levou para sua marca. Em 1978, criou ao redor dela uma coleção inspirada na ópera Porgy and Bess, de George Gershwin, sobre uma comunidade negra no sul dos Estados Unidos.
A parceria durou 17 anos. Em 2008, Mounia afirmou à revista W que havia sido a primeira musa negra de Saint Laurent, além de sua confidente e fonte de inspiração. Ele a chamava de “Moumounn”. Em 1983, ela fechou o desfile de inverno da maison com um vestido de noiva com plumas, na apresentação que lançou o perfume Paris.
Mounia também desfilou para Chanel, Mugler, Versace e Ungaro, apareceu em 15 capas de revista e trabalhou com Richard Avedon, Irving Penn e Helmut Newton. Sua trajetória influenciou a estadunidense Beverly Johnson, que apontou Mounia como um dos motivos para tentar o mercado europeu.
Retorno com tema de resistência
Depois das passarelas, Mounia se dedicou às artes plásticas, com exposições na França, no Japão e na Costa do Marfim. Ela também gravou discos, mantém uma associação que financia um orfanato-escola no Haiti e recebeu da França a Ordem Nacional do Mérito e a Legião de Honra.
O desfile da Matières Fécales, criado pela dupla canadense Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran, foi o maior da história da marca. Mounia abriu o último ato, com peças de silhuetas dos anos 1950 feitas com tecidos da Índia e algodão tecido à mão em Burkina Faso.
A coleção, chamada “O 99%”, sucedeu “O 1%”, que satirizava a elite ultrarrica. No novo desfile, amigos, colaboradores e familiares dos estilistas integraram o elenco de 99 modelos não brancos. A palavra “resistência” apareceu nas roupas, inclusive em uma camiseta usada por uma mulher de véu.
No encerramento, duas modelos carregaram esculturas hiper-realistas de homens brancos milionários, com os olhos cobertos por notas de dinheiro. A Place de la République foi definida por Bhaskaran como “um lugar de revolução” e o palco ideal para “um grupo de imigrantes como nós”.








