NOVA YORK — Durante 103 horas, sirenes cortaram Nova York dia e noite enquanto hospitais recebiam corpos e familiares buscavam notícias das vítimas dos atentados de 11 de Setembro. A cidade permanecia coberta por poeira, com cinzas no ar e cheiro de queimado até mesmo às margens do rio Hudson, onde a Estátua da Liberdade não podia ser vista.
A repórter chegou a Manhattan no sábado de madrugada, no primeiro voo saído do Brasil depois da reabertura do espaço aéreo norte-americano. Ela trabalhava como repórter de cidades no Jornal da Tarde e fazia sua primeira visita a Nova York. No avião, um nova-iorquino chamado Bóris chorou ao não conseguir ver a estátua pela janela. Ele havia perdido um primo e dois amigos nos ataques.
No centro da ilha, quase não havia carros, poucos táxis circulavam e muitas estações de metrô continuavam fechadas. Bandeiras dos Estados Unidos apareciam nas janelas dos apartamentos, enquanto praças recebiam alimentos, roupas, sangue, medicamentos e cães treinados para ajudar nas buscas. Mais de 60 mil voluntários civis participaram dos esforços, e os postes da região sul ficaram cobertos por cartazes de desaparecidos.
As homenagens se espalharam pelas esquinas, parques e templos. No domingo, uma missa na St. Patrick's reuniu mais de 4 mil fiéis que não couberam na igreja. A Quinta Avenida trocou vitrines por mensagens aos mortos, e o Carnegie Hall suspendeu a programação até o fim do mês, quando faria o “Concerto da Memória”.
Medo além das ruínas
A rotina começou a ser retomada com a reabertura parcial de escolas e linhas de metrô. Ainda assim, pais hesitavam em deixar os filhos nos colégios, e algumas crianças choravam com medo da separação. Em Little Pakistan, no Brooklyn, famílias afegãs enfrentavam outro tipo de ameaça depois de casas, lojas e mesquitas serem vandalizadas.
A violência ocorreu após a declaração do presidente Bush de que a Guerra ao Terror havia começado contra a Al-Qaeda. Um cozinheiro afegão contou, sem ser identificado, que sua família temia trabalhar, sair às ruas e mandar os filhos para a escola. Eles rezavam pelos mortos e também pela própria segurança.
Na terça-feira, Nova York se preparava para uma longa guerra. A cidade organizava solenidades, missas e cultos para lembrar as vítimas, estimadas em cerca de 3 mil. Naquele mesmo dia, foram postadas em Nova Jersey as primeiras cartas com esporos de antraz que chegariam a veículos de comunicação da cidade, deixando mais 5 mortos e 22 pessoas infectadas.
Na última noite, centenas de pessoas se reuniram no Strawberry Fields, no Central Park. Houve discursos, mantras e fotos de desaparecidos. Sob uma lua crescente, quase cheia, o grupo cantou o hino dos Estados Unidos. Vinte e cinco anos depois, a cena permanece na memória de quem acompanhou aqueles dias.








