SÃO PAULO — A queda, o afinamento e a perda de volume dos cabelos relatados por algumas mulheres durante o uso de canetas emagrecedoras podem estar ligados a mais de um fator. Especialistas discutiram a relação entre os medicamentos, a velocidade da perda de peso e a alimentação em um fórum realizado nesta terça-feira (22), em São Paulo.
Participaram do debate a tricologista Romana Novais, a dermatologista Camila Rosa e Gustavo Dieamant, diretor de P&D e Inovação do Grupo Boticário. A conversa foi mediada por Priscilla Geremias, editora de beleza.
Uma das alterações citadas foi o eflúvio telógeno, condição em que uma quantidade maior de fios interrompe o crescimento e passa para a etapa de queda. Ainda não está claro quanto desse processo pode ser atribuído diretamente aos medicamentos da classe dos GLP-1 e quanto estaria relacionado a outros fatores.
“A ciência ainda tenta entender quanto desse efeito está relacionado ao medicamento e quanto vem de outros fatores, como a baixa ingestão de nutrientes e proteínas e a velocidade da perda de peso”, afirmou Camila Rosa.
O impacto do emagrecimento acelerado
A redução intensa da alimentação pode diminuir o consumo de proteínas, vitaminas, minerais e outros nutrientes necessários para o ciclo normal dos fios. Em períodos de maior demanda metabólica, o organismo prioriza funções essenciais, e o cabelo pode receber menos energia e nutrientes.
Romana Novais defendeu que a paciente seja avaliada de forma ampla, com atenção à alimentação e, quando necessário, exames laboratoriais para identificar deficiências. A orientação é evitar o início de vários suplementos sem avaliação.
Queda, quebra e afinamento não são a mesma coisa. A queda ocorre quando o fio se solta do folículo. A quebra acontece na haste, parte visível do cabelo, e pode estar associada a procedimentos químicos e ao uso frequente de fontes de calor. Já o afinamento pode ser percebido pela redução do volume ou pela maior visualização do couro cabeludo.
Essa diferença também ajuda a identificar problemas que já existiam antes do tratamento para emagrecimento. Segundo Novais, a queda ou o afinamento pode tornar mais evidente uma condição silenciosa.
Diferentes tipos de cabelo
O processo biológico do eflúvio telógeno é semelhante em diferentes curvaturas, mas a forma de perceber a queda pode mudar em cabelos crespos e cacheados. Tranças, penteados, alisamentos e outros procedimentos precisam entrar na avaliação.
Após a retirada de uma trança mantida por mais tempo, por exemplo, pode haver a impressão de uma queda maior, porque fios que cairiam aos poucos permaneceram presos ao penteado. Camila Rosa também destacou a necessidade de cautela na leitura de pesquisas clínicas pela baixa representatividade de pessoas negras.
Nos casos de eflúvio telógeno, a condição costuma ser temporária e pode haver recuperação. O tempo depende da intensidade da queda, do organismo da paciente e da solução do fator que desencadeou o quadro. Como os fios podem cair meses depois do gatilho, a cronologia é usada na investigação.
Quando há outra alopecia associada, o diagnóstico precoce é importante. “O tratamento precisa ser individualizado, de acordo com aquilo que cada paciente apresenta”, disse Novais.
O limite dos cosméticos
O Grupo Boticário já pesquisava os efeitos de mudanças no organismo sobre cabelo e pele antes da popularização das canetas, de acordo com Gustavo Dieamant. A empresa investigou alterações de massa e espessura e combinações de ativos para melhorar a aparência de fios afinados.
Shampoos, condicionadores, máscaras e outros produtos podem atuar na superfície do fio e do couro cabeludo. Eles não substituem o tratamento de alterações que acontecem no folículo nem aumentam diretamente a densidade dos cabelos.








