A possível transferência do capital político de Jair Bolsonaro para Flávio Bolsonaro em 2026 depende de mais do que apoio partidário, alianças e propostas. Para o pesquisador goiano Jorge Cordeiro, a imagem construída pelo ex-presidente ao longo dos anos é um dos principais elementos dessa equação.
A análise está no livro A Invenção do Mito — A Construção Visual de Jair Bolsonaro, resultado de uma dissertação de mestrado apresentada à Universidade Federal de Goiás (UFG). A obra examina como fotografias, gestos, símbolos e episódios da trajetória de Bolsonaro ajudaram a transformar o político em personagem.
Símbolos de uma campanha
Na campanha de 2018, a camisa da Seleção Brasileira, a continência, a bandeira nacional, as motocicletas, o gesto da arma, a linguagem informal e a presença constante ao lado de apoiadores formaram uma narrativa visual reconhecível. Associados repetidamente, esses elementos passaram a representar força, patriotismo, enfrentamento e oposição ao sistema.
Cordeiro aproxima essa trajetória da chamada jornada do herói, conceito popularizado pelo mitólogo Joseph Campbell. Nessa estrutura, o personagem deixa o mundo comum, enfrenta adversários, passa por provações e retorna transformado.
A facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha reforçou essa construção. Ferido e hospitalizado, ele passou a carregar no próprio corpo a marca do confronto que dizia enfrentar. Depois, retornou à disputa. Bolsonaro venceu aquela eleição com uma campanha concentrada nas redes sociais e oito segundos de propaganda eleitoral na televisão.
A imagem pode mudar
O estudo também aponta que imagens políticas precisam ser renovadas. Motociatas, multidões, bandeiras sobre os ombros, lives e informalidade ajudaram a sustentar a representação de Bolsonaro durante determinado período. Ao mesmo tempo, fotografias podem ser recortadas, transformadas em memes e reinterpretadas por aliados e adversários.
Para parte dos brasileiros, Bolsonaro continua associado ao patriota, ao militar, ao pai de família, ao perseguido e ao político contrário ao sistema. Para outros, os mesmos símbolos passaram a representar autoritarismo, incompetência ou radicalização.
A questão se torna mais complexa quando o personagem aparece submetido às regras e aos enquadramentos de instituições que antes confrontava. Nesse movimento, a imagem original se modifica, e o personagem político deixa de coincidir necessariamente com o mito criado em torno dele.
O desafio do filho
Sem Bolsonaro na disputa presidencial direta, parte desse patrimônio precisa ser levada a outro personagem. Flávio Bolsonaro pode receber o apoio do pai, utilizar símbolos semelhantes e herdar parte do eleitorado bolsonarista. Ainda assim, reproduzir a identidade construída ao longo de anos é outra tarefa.
O eleitor que via no pai o militar, o sobrevivente da facada, o político desbocado, o homem das motociatas e o candidato antissistema necessariamente reconhecerá essas características no filho? Essa é uma das questões centrais para 2026.
Uma alternativa seria mudar a função do mito. Bolsonaro poderia ser apresentado como o perseguido, o candidato impedido de disputar e o cabo eleitoral responsável por indicar o filho como continuador de uma missão interrompida. Nesse cenário, Flávio não precisaria substituir o pai, mas seguir sua jornada.
A estratégia dependeria do reconhecimento dos eleitores. O sociólogo Max Weber ajuda a explicar esse limite: o carisma não fica preservado indefinidamente e exige reconhecimento contínuo de quem vê o líder como excepcional. Apoio, eleitorado e símbolos podem ser herdados. O personagem, construído durante anos, é mais difícil de transferir.








