Mensagens e documentos indicam que o senador Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Daniel Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões para financiar “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. O valor equivalia a cerca de R$ 134 milhões na época.
Entre fevereiro e maio de 2025, pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões conforme a cotação dos períodos, foram pagos em seis operações. Os registros analisados incluem cronograma de desembolso, comprovante bancário e cobranças sobre parcelas previstas. Não há evidências de que os outros oito pagamentos tenham sido realizados.
Vorcaro era dono do Banco Master. Em 17 de novembro de 2025, foi preso enquanto tentava deixar o país por operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito. Em 18 de novembro, o Banco Central liquidou a instituição.
Como o dinheiro seria enviado
Os documentos indicam que parte dos recursos saiu da Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, e ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro. Um comprovante registra uma transferência de US$ 2 milhões em 14 de fevereiro de 2025.
O fundo aparece relacionado à Havengate Development Fund GP LLC. Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, consta como agente legal e administrador. Altieris Santana aparece como membro do quadro societário.
Também participaram das tratativas o empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Vorcaro, Eduardo Bolsonaro e Mario Frias.
Em 8 de dezembro de 2024, Miranda teria organizado em Brasília um encontro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para tratar do filme. Em 11 de dezembro, Mario Frias enviou um áudio ao banqueiro agradecendo o apoio ao projeto.
No início de 2025, as conversas passaram a tratar da liberação dos recursos. Em 21 de janeiro, Zettel mencionou um fluxo de dez parcelas de US$ 2,5 milhões. Em agosto, outro documento apontou 14 parcelas: 12 de US$ 1,666 milhão e duas de US$ 2 milhões.
Cobranças e respostas
Em 8 de setembro, Flávio cobrou de Vorcaro o saldo pendente e mencionou atrasos nos pagamentos a profissionais internacionais. Em 22 de outubro, afirmou que as filmagens estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado ao limite. Em 7 de novembro, escreveu ao banqueiro: “Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”.
Em 16 de novembro de 2025, Flávio enviou outra mensagem: “Só preciso que me dê uma luz!”. No dia seguinte, Vorcaro foi preso.
Questionado sobre o financiamento, Flávio respondeu: “É mentira”. Eduardo Bolsonaro não respondeu aos questionamentos. A defesa de Daniel Vorcaro também não se manifestou.
A defesa de Mario Frias confirmou os contatos, mas afirmou que as mensagens refletiam uma relação entre o idealizador do projeto e um potencial apoiador privado. Segundo o advogado, Frias participou do desenvolvimento criativo e institucional do filme e não usou o mandato para lobby ou favorecimento empresarial.
O Grupo Entre afirmou que não possui vínculo societário, de controle ou de governança com Vorcaro. O SBT declarou que nunca teve contrato com o Banco Master e que sua relação com o grupo ocorreu por ações comerciais do produto CredCesta, entre fevereiro e dezembro de 2024.








