Em Goiânia, 703 crianças e adolescentes passaram por instituições de acolhimento em 2024 e 2025. O afastamento das famílias ocorreu em situações de abandono, violência, negligência, dependência química e falta de condições para garantir cuidados básicos.
A rede tem cinco instituições: quatro administradas por Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e uma pela Prefeitura. Entre as OSCs, apenas a Mãe Zeferina recebe dinheiro público. As demais dependem de doações e filantropia. A Prefeitura realizou um edital para repassar um salário mínimo por criança, mas os pagamentos ainda não haviam começado.
Diferentes experiências no acolhimento
Emerson Rodrigo foi acolhido aos 11 anos e deixou o sistema aos 18. Filho de uma família que saiu de Petrolina, Pernambuco, para tentar melhorar de vida em Goiás, ele e mais três irmãos pediam dinheiro nas ruas. A mãe era dependente química, e o Conselho Tutelar determinou a retirada das crianças.
No primeiro acolhimento, na Cidade de Goiás, Emerson afirma ter presenciado violência contra os irmãos. Em Goiânia, no Brazilian Kids, encontrou uma experiência diferente, com atendimento psicológico, assistência social, alimentação, educação, saúde e afeto. “Eles cuidavam de nós como se fôssemos filhos deles”, disse.
O Brazilian Kids acolhe 21 crianças e adolescentes, de 0 a 18 anos, e conta com 20 funcionários. A instituição foi fundada por Reinhard Hirtler, missionário austríaco que arrecada doações na Europa.
O Radicais Kids atende 20 crianças entre zero e sete anos. A diretora Dalva Rigonato afirma que a folha de pagamento é o principal desafio. A unidade tem mais de trinta funcionários e quatro turnos de plantão, incluindo os fins de semana.
Fiscalização e reinserção familiar
O juiz Fernando César, da Vara da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, explica que a prioridade é buscar a permanência da criança na própria família. Quando isso não é possível, ocorre o encaminhamento para o acolhimento institucional.
O promotor Ricardo Papa afirma que as unidades são fiscalizadas presencialmente pelo menos duas vezes por ano. A situação de cada criança acolhida deve ser reavaliada a cada três meses. O Ministério Público, o Conselho Tutelar, o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e a Secretaria de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos também participam do acompanhamento.
O acolhimento deve ser determinado por um juiz. Em emergências, o Conselho Tutelar pode fazer a retirada, desde que comunique o magistrado em até 24 horas. A prioridade é preservar o vínculo familiar e promover a reintegração quando houver segurança para isso.
Segundo Rondinelly-Ná Barbosa, presidente do Colegiado dos Conselheiros Tutelares de Goiânia, casos de negligência, abuso sexual e crianças deixadas sozinhas preocupam a rede. Ele afirma que a cidade tem seis conselhos tutelares, com cinco conselheiros cada, embora o ideal fosse contar com pelo menos 15.
Recursos e saída do sistema
A Prefeitura informou investimento de R$ 458.531 em serviços de alta complexidade para crianças e adolescentes. O orçamento da área caiu de R$ 230.717,41 em 2024 para R$ 227.814,18 em 2025. O Ministério do Desenvolvimento Social repassou R$ 164 mil a Goiânia em 2025 para o acolhimento institucional.
O Mãe Zeferina recebe valor próximo de mil reais por criança ao mês. Radicais Kids e Brazilian Kids afirmam que o repasse prometido de um salário mínimo não é suficiente para cobrir salários, alimentação e outras despesas.
A maioria das crianças, segundo Dalva, vai para a família extensa, formada por avós, tios ou irmãos. Outras retornam à família de origem ou são adotadas. Nurya Catharine, pedagoga do Brazilian Kids, afirma que a adoção se torna muito improvável depois dos sete anos.
Após completar 18 anos, Emerson recebeu ajuda para pagar o aluguel enquanto buscava emprego. Hoje, treina para ser cabeleireiro e afirma que sonha em construir a própria família e cuidar dos filhos.








