A Polícia Federal investiga o Havengate Development Fund LP, fundo offshore registrado no Texas, após identificar indícios de que parte dos recursos repassados por Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro tenha chegado à estrutura ligada ao filme Dark Horse e a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Entre fevereiro e maio de 2025, Vorcaro teria pago US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) a Flávio em seis operações. Documentos apontam que pelo menos US$ 2 milhões foram transferidos pela Entre Investimentos e Participações ao Havengate. A operação é analisada pelas autoridades.
Flávio afirmou que todo o dinheiro foi usado na produção da cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. Na quarta-feira (14/5), ele negou que os valores tenham custeado despesas do irmão. Na sexta-feira, voltou a dizer que Eduardo se mantém com uma doação do pai e recursos próprios.
“Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”, disse Flávio.
Eduardo também negou ter recebido dinheiro de Vorcaro. Ele declarou que apenas cedeu direitos de imagem para o projeto. Documentos de um contrato de produção, porém, apontam que ele e o deputado federal Mario Frias participaram da produção-executiva do filme. O contrato é de novembro de 2023 e foi assinado digitalmente por Eduardo em 30 de janeiro de 2024.
Eduardo afirmou que investiu R$ 350 mil no começo da produção e foi reembolsado depois da entrada de investidores. Segundo ele, sua atuação como diretor executivo ocorreu na fase inicial, antes da criação da estrutura de fundo de investimento.
A estrutura do Havengate
O Havengate tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo nos Estados Unidos. O fundo aparece como pertencente à Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial do escritório, em Dallas, no Texas.
A empresa tem Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana como membros. Santana também é sócio-administrador da Calixsan Capital Management e atua na Sanmo Realty. Ele afirma ter trabalhado anteriormente no Banco Espírito Santo e no Banco do Brasil, ambos em Miami.
Calixto é advogado especializado em imigração e atua com o visto EB-5. Flávio disse considerar natural que o advogado responsável pelo processo migratório de Eduardo também participe da administração do fundo. Eduardo destacou a experiência profissional de Calixto.
A Entre Investimentos é liderada por Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. Ele foi alvo da segunda fase da operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master e Vorcaro.
Em março deste ano, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento, da Acqio Adquirência e da Octa Sociedade de Crédito Direto, integrantes do Conglomerado Entrepay, controlado pela Entre Investimentos. A Entre nega vínculo societário, controle ou governança de Vorcaro.
Investigação internacional
Eduardo vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Na última segunda-feira (11/5), a Procuradoria-Geral da República pediu a condenação do deputado federal cassado por coação no curso de processo. A acusação envolve a articulação de sanções contra o Brasil e autoridades brasileiras, com o objetivo de influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.
Em 2025, Jair Bolsonaro enviou R$ 2 milhões a Eduardo nos Estados Unidos. O Supremo Tribunal Federal considerou o envio um indício da articulação entre pai e filho para interferir na atuação do Judiciário brasileiro.
Fundos offshore são estruturas de investimento registradas fora do país de residência dos investidores. Especialistas ouvidos no caso afirmam que esses veículos podem dificultar a identificação dos beneficiários finais, principalmente quando uma empresa ou outro fundo aparece como proprietário.
A investigação enfrenta uma barreira adicional porque os Estados Unidos não aderiram ao Common Reporting Standard, padrão internacional de troca automática de informações tributárias ao qual o Brasil aderiu formalmente em 2016. A PF depende, nesse caso, de cooperação específica com o FBI ou instituições americanas para obter dados sobre o fundo.
O auditor fiscal Roberto Alvarez afirmou que a operação entre Vorcaro e Flávio levanta dúvidas sobre a origem dos recursos e sobre eventuais tributos incidentes. A apuração ainda busca esclarecer o destino do dinheiro e a participação de cada envolvido na estrutura financeira.









