A violência contra a mulher voltou a ocupar espaço no debate eleitoral, com candidatos apresentando propostas para enfrentar o problema. A discussão, porém, não pode ser usada apenas como estratégia para conquistar votos, especialmente quando envolve um crime relacionado a raízes culturais e à ideia de submissão feminina.
A educação aparece entre as principais alternativas defendidas para romper comportamentos violentos e possessivos reproduzidos por gerações. Mas os casos registrados mostram que a violência não está restrita a pessoas com baixa escolaridade ou pouco acesso a oportunidades. Também há denúncias envolvendo indivíduos com influência, dinheiro e atuação na política ou no mercado empresarial.
Casos envolvendo pessoas públicas
O deputado estadual Lucas Bove (PL-SP) tornou-se réu por violência doméstica, violência psicológica e perseguição contra a ex-mulher, Cíntia Chagas. Em 2024, a influenciadora prestou queixa e relatou abusos físicos e psicológicos durante o relacionamento, que durou mais de dois anos.
Segundo o relato de Cíntia, o deputado a ameaçava com uma arma de fogo sob a justificativa de que seria uma brincadeira. Ela também afirmou que ele lançou uma faca em direção à sua perna e disse que a mataria caso descobrisse uma traição. A influenciadora relatou ainda agressões físicas, inclusive na presença de outras pessoas.
O empresário Thiago Brennand responde a processos criminais relacionados a acusações de agressões, violência contra a mulher e estupros. Ele já foi condenado em alguns casos e firmou acordos em outros. Uma brasileira que morava nos Estados Unidos afirmou ter sido convidada por ele para visitá-lo em São Paulo e relatou ter vivido três dias de “horror”.
De acordo com a vítima, ela foi obrigada a manter relações sexuais sem preservativo e teria sido agredida ao recusar. Também afirmou que teve o corpo tatuado com as iniciais TBV, para ser “marcada como propriedade dele”. Depois da denúncia, relatou ter sido ameaçada com vídeos íntimos que teriam sido gravados sem consentimento. O caso, arquivado em Porto Feliz, foi reaberto após novas denúncias contra o empresário.
Outro caso envolve Ivo Kos, de 48 anos, preso por agredir a companheira em São Paulo. Conhecido no mercado financeiro por atuar na região da Faria Lima, ele teve a relação exposta depois que a vítima publicou imagens dos ferimentos no rosto. Ela afirmou que já havia sido agredida outras vezes pelo marido. Os dois estavam casados havia cerca de dois anos e meio.
Na política, o cantor, apresentador e ex-vereador de São Paulo Netinho de Paula também teve episódios de violência contra mulheres expostos publicamente. Em 2001, foi condenado a indenizar uma funcionária da extinta Vasp após aplicar nela um golpe conhecido como “chave de braço”. Em 2005, enfrentou outro processo por uma acusação de agressão contra a então mulher. O caso terminou depois de um acordo extrajudicial.
Esses episódios não tornam a violência contra mulheres públicas mais importante do que a sofrida por outras vítimas. Eles, porém, mostram que o problema não escolhe cor, raça, posição social ou nível de escolaridade. Enquanto alguns casos chegam à Justiça e aos noticiários, outros podem ser abafados ou nem sequer denunciados.
O poder, o dinheiro e o prestígio não dão a ninguém o direito de interferir na liberdade ou na vida de outra pessoa. Por isso, promessas de combate à violência precisam ser acompanhadas de responsabilidade e coerência por parte de quem pretende apresentar soluções para o problema.








