RIO DE JANEIRO — Arlete Praia tinha 22 anos quando perdeu a casa em uma enchente em Xerém, na Baixada Fluminense. Com a filha pequena, passou por aluguéis, abrigos, comunidades e períodos ao relento até conseguir reconstruir a própria vida. Hoje, é educadora popular e trabalha com pessoas em situação de rua.
A enchente aconteceu em 2013 e levou o imóvel da família. Sem dinheiro guardado ou rede de apoio, Arlete passou a morar de aluguel. Como precisava cuidar da filha, deixou de trabalhar e ficou sem renda. O relacionamento com o pai da menina também se tornou abusivo, enquanto ele enfrentava problemas com álcool.
Depois de tentar recomeçar na casa da mãe, Arlete saiu com a filha no mesmo dia em que chegou ao local. Na virada daquele ano, dormiu na marquise de um quiosque. Em seguida, passou três meses com a criança em uma mata em Xerém, no Alto da Serra, na subida de Petrópolis. Para sobreviver, buscava alimentos em sítios e montou um pequeno acampamento.
Abrigos e recomeços
Ao voltar para Duque de Caxias, procurou o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), mas deixou o local com a filha depois de entender que não receberia o apoio que buscava. Durante nove meses, passou de um lugar para outro no município e chegou a ocupar um prostíbulo.
Depois, foi para Niterói. Um desabafo em um grupo de mães feministas no Facebook aproximou Arlete de mulheres que a acolheram. Por orientação do Conselho Tutelar de Niterói, ela foi encaminhada ao Abrigo Rainha Sílvia, em Itaboraí, onde ficou cerca de dez meses.
No abrigo, estudou, trabalhou na cozinha, deu reforço escolar e atuou como voluntária e intérprete de língua de sinais. Também reencontrou uma professora do ensino fundamental, que a convidou para morar com a família em Nova Friburgo.
Arlete foi para Nova Friburgo em 2019. Trabalhou em um mercado e na panificação, fez um currículo e, depois, decidiu voltar ao Rio para ajudar pessoas que enfrentavam situações parecidas.
Educação e atuação social
Hoje, Arlete trabalha com pessoas em situação de rua e ajuda adolescentes a buscar oportunidades longe da influência do tráfico. Ela afirma que a experiência deixou marcas, como tiques e síndrome do pânico, além das lembranças de agressões e de um homicídio que presenciou.
Em 2024, prestou vestibular pela primeira vez. O resultado saiu em 2025, e ela conseguiu uma vaga em pedagogia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A matrícula precisou ser trancada depois que engravidou novamente em março e foi diagnosticada com hiperêmese gravídica. Com 11 semanas de gestação, teve a primeira internação.
A filha, Elis Regina, vive hoje com Arlete, estuda, faz natação e escreve poesia. A mãe diz que não entregou a tutela da menina a ninguém e resume a trajetória: “Quem criou minha filha fui eu, não entreguei a tutela dela a ninguém.”








