Hábitos cotidianos, moda, beleza e tradições chinesas ganharam espaço entre jovens ocidentais da Geração Z em vídeos nas redes sociais. A tendência, chamada de “Chinamaxxing”, brinca com a ideia de “se tornar chinês” ao mostrar práticas como beber água quente, usar chinelos dentro de casa e vestir jaquetas inspiradas na estética tradicional chinesa.
O termo combina China com a expressão em inglês to the max, usada para indicar algo levado ao máximo. O movimento também acompanha a popularização de produtos e referências chinesas, como o Labubu, que em 2025 virou acessório de moda de Marina Ruy Barbosa, Dua Lipa e fashionistas ao redor do mundo.
Criadores de ascendência chinesa ajudam a apresentar esses costumes ao público ocidental. Sherry Zhu, nascida nos Estados Unidos, publica conteúdos sobre skincare à base de ervas, beleza, estilo de vida e uma chamada “estética chinesa”. No ano passado, ela publicou vídeos em tom de brincadeira sobre pratos típicos e chinelos dentro de casa. Um deles foi compartilhado quase um milhão de vezes em dezembro.
No Brasil, Priscila Jin produz desde 2020 conteúdos sobre viagens pela China e costumes de sua família. Entre os vídeos que mais repercutiram está um sobre a tradição de não lavar o cabelo no início do Ano Novo Lunar, ligada a uma crença sobre prosperidade. Ela também fala de beleza, skincare e dos chamados “segredos das chinesas”.
Mudança na imagem da China
Mayara Araújo, doutora em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense e pesquisadora das relações midiáticas entre China e Brasil, associa o fenômeno à descrença crescente no Ocidente como referência de estilo de vida e à apresentação da China como alternativa de liderança global. Para ela, estratégias de soft power ajudam a construir a imagem de um país mais atraente.
Essa percepção contrasta com ataques xenofóbicos registrados durante a pandemia de covid-19. Nos Estados Unidos, Donald Trump chamou a doença de “gripe kung fu”. A pesquisadora relaciona esse histórico às representações negativas que remontam às teorias do “perigo amarelo” do século 19.
Nas redes, imagens de Chongqing e Xangai, além de sistemas de transporte, drones, veículos elétricos, projetos de energia limpa e cidades iluminadas por neon, reforçam uma visão futurista da China. Também circulam registros de idosos dançando tai-chi ou praticando artes marciais em praças.
Interesse e apropriação cultural
Para chineses e descendentes, a valorização repentina da cultura pode soar como apropriação cultural depois de anos de discriminação. Elise Zeng, moradora de Nova York, afirmou que o reconhecimento atual não apaga o racismo enfrentado por muitos chineses.
Priscila Jin defende que a curiosidade não fique restrita ao consumo. Ela afirma que o interesse deve servir para conhecer de fato o país e sua cultura, sem transformar referências chinesas em tendência passageira. Sherry Zhu, que já relatou ter sofrido bullying por sua identidade, declarou que a visibilidade pode reduzir mal-entendidos.
Para Mayara Araújo, a ideia de “tornar-se mais chinês” coloca a China como modelo a ser alcançado e também revela uma mudança no imaginário ocidental. A pesquisadora avalia que o país ocupa um espaço antes associado aos Estados Unidos, impulsionado por sua presença tecnológica e por marcas como Huawei, Alibaba e Xiaomi.








