O trabalho de Cristina Pagnoncelli começa antes da tinta chegar à parede: para a artista, as letras também carregam memória, posicionamento e espaço para outras mulheres. Designer gráfica, artista visual, muralista e arte-educadora, ela transforma palavras em imagens por meio do lettering, técnica de desenhar letras à mão.
Nascida em Pato Branco, no sudoeste do Paraná, Cristina mora em Curitiba desde os 18 anos. Aos 15, mudou-se para Cascavel e, três anos depois, foi para a capital paranaense estudar. A escolha pelo design gráfico veio depois de um teste vocacional. Na infância, ela já desenhava, fazia colagens e havia pintado o primeiro mural na rua aos 11 anos.
Experiências que mudaram o caminho
Entre 2009 e 2010, Cristina passou nove meses na Europa, onde fez uma pós-graduação em Ilustração Criativa e Técnicas de Comunicação Visual. Ela descreve esse período como a “gestação de uma nova Cris”, fase em que retomou com força o interesse por processos manuais.
Entre 2012 e 2013, viveu seis meses em Nova Iorque, nos Estados Unidos, estudando visual branding e ilustração. O contato com a arte de rua do Brooklyn e com antigas sinalizações tipográficas influenciou a forma como passou a desenvolver seu próprio trabalho.
De volta a Curitiba, começou a fazer chalk lettering em paredes de cafés. Depois, aprofundou os estudos em caligrafia e tipografia e cofundou o coletivo Criatipos com Silvia Costa, Eduilson Coan e Jackson Alves. O grupo participou de pinturas ao vivo no Lollapallooza e realizou workshops e palestras no Brasil, na Argentina, na Espanha e na Itália.
Murais e projetos para mulheres
Em 2014, Cristina e Silvia Costa pintaram em Nova Iorque o mural “Perhapiness”, homenagem a Paulo Leminski. Dois anos depois, ela fez o primeiro mural de grande porte em Curitiba, na fachada do Moinho Rebouças.
Há 10 anos, a artista mantém o “Lute Todos os Dias”, calendário anual voltado à divulgação da produção de mulheres e à arrecadação de recursos para causas sociais. Após uma década em formato voluntário, o projeto passa por reestruturação para buscar remuneração das artistas e profissionalizar a gestão por meio de editais de fomento.
Em 2021, Cristina criou o mural “Coragem”, em frente ao Passeio Público, em Curitiba. A obra surgiu depois que os proprietários de um prédio recusaram uma proposta de homenagem a Alice Ruiz, que usaria um poema com a palavra “úmida”.
Diante do veto, a artista decidiu seguir com a pintura. “No meio do processo surgiu a palavra coragem”, relatou Cristina. O mural, feito em uma lateral de prédio com seis andares, tornou-se uma síntese da trajetória de uma profissional que usa a linguagem visual para falar de superação, crítica social e empoderamento feminino.








