Fotos de mulheres evangélicas estão sendo manipuladas por inteligência artificial para criar imagens sexualizadas e vender conteúdo adulto. As publicações aparecem em perfis falsos no Instagram, Facebook, TikTok e X, com links para chats privados e grupos no Telegram.
Uma das vítimas é Rebeca Waikssel, que encontrou na internet uma versão alterada de uma foto tirada em sua igreja. A imagem recebeu mudanças no corpo, na roupa e em acessórios, e passou a ser usada para divulgar material vendido a partir de R$ 15,00. O perfil falso que utilizava a imagem dela já tinha mais de 300 mil seguidores.
Rebeca frequenta a Congregação Cristã no Brasil e relatou medo, isolamento e julgamentos depois de denunciar o caso nas redes sociais. Mesmo após as denúncias, as imagens continuaram disponíveis e associadas à venda de pornografia.
Como funciona o esquema
As contas publicam vídeos de mulheres com a Bíblia ou cantando em igrejas e direcionam os seguidores para conversas automáticas com bots. Os chats oferecem prévias explícitas e planos pagos. Em pelo menos 5 dos bots analisados, os pacotes variavam de cerca de R$ 15,00 a R$ 45,00. Também havia ofertas de R$ 106,80 e, em promoção, R$ 4,16. Os acessos eram anunciados como vitalícios.
As imagens usadas nas montagens podem aparecer em diferentes contas. Também há casos em que jovens brancas são editadas para se parecerem com mulheres negras, reproduzindo estereótipos racistas.
Risco e caminhos legais
Amanda Santos, coordenadora de projetos do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab-UFRJ), afirma que uma em cada três ferramentas de inteligência artificial disponíveis na internet permite gerar conteúdo explícito. Um relatório da Security Hero, produzido em 2023, apontou que um vídeo pornográfico de até 60 segundos podia ser criado em menos de 25 minutos usando apenas uma foto nítida do rosto.
A pesquisadora também diz que anúncios podem ser impulsionados com até cem reais. Conteúdos falsos envolvendo a atriz Paolla Oliveira chegaram a ser retirados por meios legais, mas parte das publicações continuou circulando.
Para reunir provas, Maíra Recchia, presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB, recomenda salvar o link da postagem e preservar o material por meio de uma cadeia de custódia. Ela cita a ferramenta VeriFact, homologada pelos tribunais brasileiros, para atestar a autenticidade da publicação.
Com os registros preservados, a vítima pode procurar uma delegacia de polícia ou a Defensoria Pública. A remoção do conteúdo, a retratação e a indenização podem ser solicitadas em ações cíveis ou criminais.








