Um estudo do Desinfo.Pop, laboratório associado ao Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da Fundação Getúlio Vargas, identificou o uso de inteligência artificial para criar imagens de mulheres sexualizadas com deficiências fictícias. A prática acrescenta o capacitismo à violência de gênero e também aparece em conteúdos que ridicularizam pessoas com deficiência.
A pesquisa foi conduzida por Ergon Cugler de Moraes Silva, Julie Ricard e Mario Aquino Alves. Os pesquisadores analisaram publicações em diferentes plataformas digitais para verificar a existência do fenômeno e suas formas de manifestação. Segundo o grupo, os vídeos são encontrados facilmente nas redes.
O que é cripface
O estudo identificou o chamado cripface, termo usado para descrever a simulação de uma deficiência por alguém que não a possui. A prática é comparada ao blackface e pode envolver filtros, montagens e outras ferramentas de IA.
As mulheres aparecem como principal alvo da sexualização. Entre os conteúdos analisados, havia vídeos protagonizados especialmente por mulheres em academias ou praias. Em muitos casos, os perfis levavam a canais de venda de conteúdo adulto mantidos pelos próprios criadores.
A combinação das palavras “autista” e “IA” nas ferramentas de pesquisa das plataformas estava majoritariamente associada a conteúdos pejorativos. Também foram encontrados materiais que tinham homens negros e pardos como alvo de afirmações depreciativas.
Ergon relatou que, ao buscar por síndrome de Down no TikTok, os primeiros posts recomendados pelo algoritmo eram conteúdos sexualizados produzidos com IA. A análise, porém, foi feita apenas em grupos e publicações públicas, o que, na avaliação dos pesquisadores, representa uma parte limitada do que circula na internet.
Violência e responsabilização
Para Julie Ricard, mesmo uma representação sintética afeta pessoas, grupos e os significados associados à deficiência. Ergon afirmou que a prática amplia a exposição, o medo, a violência e a discriminação contra pessoas com deficiência.
A pesquisa também aponta uma estrutura de distribuição e monetização: os materiais são divulgados em plataformas de maior alcance e depois direcionam o público para canais com menor moderação, onde ocorre a comercialização.
A legislação brasileira prevê responsabilização para conteúdos produzidos ou divulgados sem autorização. A Lei nº 15.487/2026 tornou crime hediondo a produção, posse ou disseminação de materiais que simulem abuso ou pornografia infantil com IA ou deepfakes. Para maiores de 18 anos, os artigos 216-B e 218-C do Código Penal podem ser aplicados a montagens e à divulgação não autorizada de cenas íntimas.
Ao encontrar esse tipo de conteúdo, a orientação dos pesquisadores é registrar boletim de ocorrência quando a pessoa for vítima ou conhecida dela. Nos demais casos, a denúncia deve ser feita à plataforma. Eles também recomendam preservar as provas, pois as publicações podem ser removidas rapidamente.








