SÃO PAULO — Helen Baum passou seis anos entre as ruas e o cárcere. Depois de deixar a prisão, em janeiro de 2017, ela reconstruiu a relação com o filho, retomou os estudos e passou a trabalhar na defesa de mulheres presas e egressas do sistema prisional.
Nascida em Itaquera, na periferia da zona Leste de São Paulo, Helen começou a usar cocaína aos 17 anos. Aos 24, engravidou e interrompeu o consumo. Anos depois, voltou a usar a droga durante a faculdade de Direito. Após perder a guarda do filho e ser expulsa de casa, passou a consumir cocaína diariamente e conheceu o crack, em 2011.
Ela viveu nas ruas, fez coleta seletiva e vendeu materiais recicláveis para sustentar o consumo. Em outubro de 2013, estava em uma pensão no Glicério, no Centro de São Paulo, quando uma operação policial entrou no local. Helen e outras mulheres foram presas e obrigadas a assinar o flagrante. Ela afirma que não participava do comércio de drogas e que foi presa no lugar de outra pessoa.
Prisão, multa e desigualdade
Helen foi levada ao Centro de Detenção Provisória de Franco da Rocha. Sua pena inicial era de um ano e oito meses, mas subiu para cinco anos e quatro meses após recurso do Ministério Público. A multa chegou a R$ 20 mil. Sem o pagamento, o título de eleitor ficava suspenso, o que dificultava o acesso ao emprego formal.
Dentro da prisão, ela recebeu tratamento de desintoxicação e participou de um projeto de remição por leitura. Também trabalhou na montagem de peças de carro e na solda. Segundo seu relato, as mulheres negras eram direcionadas principalmente para a faxina e a cozinha, enquanto as vagas mais valorizadas ficavam com mulheres brancas.
Ao sair, Helen tinha apenas as roupas e os documentos, mas contava com uma casa para voltar e uma rede de apoio. Suas amigas enfrentaram dívidas relacionadas às multas, dificuldades para trabalhar e falta de suporte. A reconstrução do vínculo com o filho também exigiu tempo: quando se reencontraram, ele já era adulto.
Estudos e militância
Em 2022, Helen voltou a São Paulo e participou de um curso de extensão para mulheres sobreviventes do cárcere na Universidade Federal do ABC, em Santo André. Com o apoio da professora Alessandra Teixeira, ingressou no mestrado em 2023. Sua pesquisa aborda as maternidades afetadas pelo cárcere e a transformação da identidade materna.
Helen trabalha como educadora no Memória do Carandiru e como pesquisadora no Instituto Terra, Trabalho e Cidadania. Também participa da Ação da Saidinha, que acolhe mulheres na saída temporária com roupas, dinheiro para o transporte e café da manhã.
Ela relata que ainda convive com traumas da prisão, faz terapia e mantém hábitos ligados ao período em que esteve encarcerada. Mesmo com diplomas e experiência, afirma que os antecedentes criminais continuam dificultando o acesso a empregos na área de formação.
A história de Helen também virou livro, organizado a partir de relatos gravados com uma amiga psicóloga. A capa tem uma borboleta, símbolo da transformação que ela associa à própria trajetória. Hoje, ela dedica o trabalho à luta contra as desigualdades do sistema prisional e à reconstrução da vida de mulheres que deixam o cárcere.








