RIO DE JANEIRO — Uma auditoria do governo do estado encaminhou à Procuradoria-Geral da República um caso que envolve Douglas Ruas, candidato do PL ao governo fluminense, e Altineu Côrtes, presidente estadual do partido. A remessa ocorreu porque um dos parlamentares tem foro especial.
A Controladoria-Geral do Estado concluiu 30 auditorias sobre contratos que somam pelo menos R$ 2,6 bilhões. Os relatórios foram enviados pelo Gabinete de Segurança Institucional ao Ministério Público do Rio de Janeiro.
Relações entre as famílias
A análise apontou um “circuito de relações interligadas” entre as famílias Ruas e Côrtes no período em que Douglas Ruas esteve à frente da Secretaria estadual das Cidades, entre setembro de 2023 e março de 2026.
Entre os pontos examinados está a atuação da Mineração Santa Edwiges no fornecimento de massa asfáltica para recapeamento na Região Metropolitana, especialmente em São Gonçalo. A empresa tem entre os sócios Altineu Côrtes Paesler Coutinho, filho do deputado federal. O município é administrado pelo prefeito Capitão Nelson, pai de Douglas Ruas.
Material fornecido pela Santa Edwiges foi usado em pelo menos cinco etapas de obras em São Gonçalo, com custo de R$ 4,9 milhões. A auditoria ressalvou que o fornecimento para obras públicas e os negócios privados de empresas ligadas às duas famílias são operações diferentes. O aspecto levado aos órgãos de controle foi a coincidência no período entre contratos públicos e a expansão de relações empresariais privadas.
Os auditores também avaliaram a Saur Construção, Terraplanagem e Locação, empresa em que Douglas Ruas detém 90% do capital social, e a Normandia Empreendimentos e Participações, vinculada no relatório à família Côrtes. Segundo a CGE, as companhias movimentaram ativos imobiliários e direitos creditórios em operações de consórcio ou copropriedade, principalmente a partir de 2023.
A Saur acumulou lucro líquido de R$ 19,6 milhões até novembro de 2025. Desse montante, R$ 15,9 milhões foram pagos a Douglas Ruas em dividendos. O relatório registrou que a quantia supera em mais de 12 vezes o patrimônio de R$ 1,2 milhão declarado pelo então candidato à Justiça Eleitoral em 2022.
Os dados foram apresentados como base para aprofundar a apuração. A auditoria também destacou que relações empresariais ou contratos públicos, isoladamente, não comprovam ilícito.
Contratos de recapeamento
Outra frente envolve contratos de recapeamento liderados pela FP Vieira Engenharia, em negócios que totalizam R$ 702 milhões. Um contrato assinado em outubro de 2025, no valor de R$ 99,7 milhões, recebeu aditivo de R$ 45,3 milhões dezessete dias após o começo da obra. O valor passou a R$ 144,9 milhões.
O aumento de 45,4% foi considerado relevante pelos auditores porque a legislação de licitações prevê, como regra, limite de 25% para acréscimos em obras e serviços de engenharia.
A revisão foi determinada pelo Decreto estadual 50.254/2026 e alcançou contratos e despesas de diferentes áreas da administração direta e indireta.
Na Secretaria Extraordinária de Representação do Governo em Brasília, os auditores examinaram uma contratação sem licitação do Instituto NTC do Brasil para seminários on-line destinados a 4.800 inscritos. O contrato custou R$ 7,66 milhões. Mais de 90% dos participantes dos quatro seminários registraram carga horária zerada, e apenas nove pessoas teriam atendido aos requisitos para receber certificado.
Outros contratos analisados
A Secretaria de Governo teve dois contratos avaliados, com valor conjunto de R$ 153,9 milhões. Entre as despesas, estavam 100 mil kits sobre os riscos de misturar álcool e direção, comprados por R$ 25,7 milhões. Parte do material foi localizada armazenada e deveria ser distribuída em operações da Lei Seca. Uma proposta anterior previa os mesmos kits por R$ 12,9 milhões.
Outro relatório tratou de um contrato de limpeza e manutenção de praças do Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio. O orçamento da instituição saiu de R$ 9,2 milhões em 2021 para R$ 101,4 milhões em 2022. De acordo com os auditores, aproximadamente metade das despesas foi direcionada a uma única empresa.
No Departamento de Estradas de Rodagem do Rio, a fiscalização analisou contrato de R$ 36,3 milhões para transporte de escória de aço usada em pavimentação. A previsão subiu de 200 mil para 750 mil toneladas, aumento de 275%, sem justificativa técnica registrada, segundo os auditores.
Também foi examinado o fornecimento de alimentação para presos em unidades de Campos dos Goytacazes. A Secretaria de Polícia Penal prorrogou um contrato emergencial de R$ 19,3 milhões. Na disputa anterior, houve 15 propostas. Algumas empresas não fizeram lances, e a vencedora apresentou exatamente o mesmo preço de uma concorrente, situação registrada como possível indício de combinação prévia.
Uma nova licitação prevê custo diário de até R$ 27,84 por alimentação, ante R$ 15,45 no contrato anterior.
Altineu Côrtes negou irregularidades e disse que as empresas citadas não tiveram vínculo com o poder público. O deputado também afirmou que denúncias desse tipo aparecem em períodos eleitorais.
A campanha de Douglas Ruas declarou que os documentos da CGE e do GSI não apontam “caracterização inequívoca de irregularidade material” e defendeu a continuidade das apurações, com análise dos procedimentos e depoimentos dos envolvidos.
O envio à PGR não significa, por si só, conclusão de responsabilidade criminal ou administrativa. A remessa permite que os órgãos competentes avaliem os fatos e decidam eventuais providências.








