A eleição para a Cadeira n° 1 da Academia Brasileira de Letras terminou com a vitória de Bernardo Élis sobre Juscelino Kubitschek, em 1975. A disputa só foi definida no terceiro escrutínio: Élis recebeu 20 votos, contra 18 para o ex-presidente.
O episódio é relatado por Josué Montello em Diário Completo. Na tentativa de defender a candidatura de JK, Montello associou a campanha de Bernardo Élis a uma suposta ajuda do general Golbery do Couto e Silva. Essa colaboração, porém, nunca foi comprovada.
A trajetória de Bernardo Élis
A hipótese é contestada pela trajetória política de Élis. Um dos fundadores do Partido Comunista em Goiás, o escritor foi perseguido pela ditadura civil-militar. Perdeu a cátedra na Universidade Federal de Goiás, foi aposentado compulsoriamente do cargo de professor da Escola Técnica Federal de Goiás e permaneceu sob vigilância do SNI por mais de dez anos.
Antes da eleição para a Academia, Élis havia concorrido a deputado federal e a deputado estadual pelo Partido Comunista do Brasil em Goiás, em 1945 e 1947, respectivamente. Não venceu essas disputas. Também já tinha reconhecimento literário fora do estado, com o Prêmio José Lins do Rego, em 1965, o Prêmio Afonso Arinos, em 1967, e dois Prêmios Jabuti, em 1967 e 1968.
JK, por outro lado, havia vencido todas as suas pretensões eleitorais até então. A candidatura à ABL foi a única eleição perdida por ele. Conforme o diário de Montello, o ex-presidente comentou após o resultado: “Agora sei, por experiência própria, que é mais fácil ser eleito presidente da República”.
Montello também registrou a decepção com a derrota do amigo. Ao comentar o resultado com a mulher, teria dito: “Cedo, Bernardo Élis vai envergonhar-se de sua vitória”. Isso não aconteceu. A prosa do escritor goiano foi elogiada por Monteiro Lobato e Guimarães Rosa.
Em A Vida São as Sobras, Élis escreveu sobre o desejo de levar o nome de Goiás ao cenário literário nacional. Em 10 de dezembro de 1975, tomou posse na Academia Brasileira de Letras, recebido por Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira.
Juscelino Kubitschek compareceu à cerimônia no Petit Trianon. Sentado ao fundo do salão nobre, aguardou sua vez de cumprimentar Bernardo Élis, o homem que o havia derrotado no voto.








