RIO DE JANEIRO — Cinquenta anos após sua morte, Bertha Lutz continua associada à conquista do voto feminino e à defesa da participação das mulheres na política brasileira. A bióloga, advogada, educadora, diplomata e ativista morreu em 16 de setembro de 1976, aos 82 anos, no Rio de Janeiro.
Nascida em São Paulo, em 1894, Bertha era filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Estudou parte da formação na Universidade de Sorbonne, em Paris, e trabalhou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Paralelamente, dedicou-se às causas sociais e presidiu a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.
Da mobilização ao voto
A atuação de Bertha integrou o movimento sufragista brasileiro. As ativistas pressionaram políticos e buscaram apoio institucional durante anos. Em 1927, após a eleição de Juvenal Lamartine para o governo do Rio Grande do Norte, mulheres do estado começaram a se alistar para votar. Celina Guimarães Viana, professora de Mossoró, foi a primeira registrada.
Em entrevista concedida em 1971, Bertha definiu o episódio como um marco: “Foi realmente o primeiro passo. O fato começou a se espalhar pelo país”.
O voto feminino foi reconhecido nacionalmente por Getúlio Vargas em fevereiro de 1932. No ano seguinte, mulheres de todo o país participaram da eleição para a Assembleia Constituinte. Em 1934, o direito foi incorporado à Constituição.
Naquele mesmo ano, Bertha disputou uma vaga para deputada federal e recebeu mais de 16 mil votos. Ficou como primeira suplente e assumiu o mandato em 1936, depois da morte de Cândido Pessoa. Com isso, tornou-se a segunda mulher a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Atuação internacional e memória
Em 1945, Bertha integrou a delegação brasileira responsável pela construção da Carta das Nações Unidas. O caminho percorrido por ela ocorreu em um período de restrições à participação feminina. Na Assembleia Nacional Constituinte de 1890-1891, o deputado Lacerda Coutinho defendeu argumentos baseados em diferenças entre homens e mulheres.
O legado de Bertha também está presente no Senado Federal, que entrega todos os anos o Diploma Bertha Lutz a personalidades ligadas à defesa dos direitos das mulheres e das questões de gênero.
Professora emérita da UFRJ, Bertha viveu em uma casa de três andares no Alto da Boa Vista, com cinco cachorros. Dezessete mulheres levaram seu caixão até a sepultura no Cemitério São João Batista.









