O uso do celular antes de dormir pode deixar o cérebro em estado de alerta e prejudicar o descanso. Uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores brasileiros analisou 23 estudos e encontrou associação entre a exposição excessiva às telas e menor duração do sono, dificuldade para adormecer, despertares durante a noite e sonolência durante o dia.
A análise foi publicada nos Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz, e aponta preocupação especial com crianças e adolescentes. A professora do IDOMED Milca Abda, especialista em higiene do sono e na relação entre sono e humor, explica que o organismo precisa reduzir o ritmo antes de dormir. O celular pode fazer o oposto, dependendo do conteúdo e da forma de uso.
“Enquanto você está ali rolando o feed, o cérebro está sendo ativado”, afirma Milca. Vídeos em sequência, mensagens, notificações, notícias e redes sociais mantêm a atenção ocupada. Em 2024, um painel da National Sleep Foundation concluiu que tanto o uso de telas quanto as características do conteúdo consumido podem interferir no sono.
Efeito entre adolescentes
Um estudo publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria avaliou 466 adolescentes entre 15 e 17 anos. Entre eles, 34,1% apresentaram sonolência diurna excessiva, enquanto o tempo médio de sono durante a semana foi de 6,9 horas por noite. Após a consideração de outros fatores, o uso do celular antes de dormir esteve associado a uma chance 4,3 vezes maior de sonolência diurna excessiva.
A revisão também relaciona noites mal dormidas a possíveis impactos em atenção, memória e aprendizagem. Milca afirma que, entre crianças e adolescentes, as consequências podem ser maiores na parte cognitiva e escolar.
Mudança gradual
A especialista reconhece que ficar duas horas sem celular antes de dormir pode ser difícil. A recomendação é começar com um intervalo de 30 minutos a uma hora sem telas antes de deitar, respeitando a rotina e o período de adaptação de cada pessoa.
O modo noturno do aparelho pode reduzir a exposição a determinados comprimentos de onda da luz, mas não elimina notificações, interações e decisões. Por isso, o filtro apenas ameniza o impacto e não resolve o problema.
O celular também pode ser usado em atividades de relaxamento, como meditação guiada, exercícios respiratórios e outras técnicas. A condição, segundo Milca, é evitar as redes sociais antes de dormir.








