A discussão provocada pelo livro História das Mestiçagens no Brasil vai além das redes sociais: envolve o direito de pesquisar a formação da sociedade brasileira, os limites do debate acadêmico e as diferentes experiências de identidade racial. Organizada pelos historiadores Mary del Priore e Gian Melo, a obra reúne 17 ensaios e tem 567 páginas.
Mary del Priore afirmou que passou a receber ataques depois do lançamento. As mensagens questionavam a publicação de pesquisas sobre mestiçagem e associavam os autores ao chamado pacto de branquitude. Um professor responsável por um dos ensaios também foi alvo de insultos homofóbicos e decidiu não revelar o nome.
Proteção e reação institucional
Durante a sessão de autógrafos na 28ª Bienal Internacional do Livro, encerrada no dia 13 deste mês, Mary pediu proteção à Unesp. A universidade contratou seguranças para acompanhá-la.
A Fundação Editora Unesp condenou qualquer tentativa de silenciamento e declarou solidariedade à historiadora. Mary, porém, criticou o silêncio da universidade diante do episódio e disse que pesquisadores de diferentes faculdades relatam medo de se manifestar por causa de alunos e das redes sociais.
“É gravíssimo — grupos de poder dentro das universidades querem controlar ideologicamente o que pode ser pesquisado e discutido”, afirmou Mary del Priore.
O que os autores defendem
A historiadora sustenta que a mestiçagem não pode ser explicada apenas pela violência sexual contra mulheres escravizadas. A pesquisa também aborda relações entre pessoas pobres de origens variadas e a formação de famílias plurais, incluindo estratégias de ascensão social e libertação de filhos nascidos no cativeiro.
Mary e Gian Melo afirmam que o livro não celebra o branqueamento nem coloca o mestiço acima da população preta. A apresentação da obra relaciona o estudo das raízes brasileiras à necessidade de discutir negritude, branquitude e pardismo com mais equidade, respeito e pluralidade.
Gian Melo, professor da Universidade Federal de Alagoas, diferencia a ideologia da mestiçagem — usada pelo Estado com objetivo de embranquecer a população — da mestiçagem como fenômeno popular. Para ele, a experiência aparece também na alimentação, na música, na religiosidade e nos modos de falar.
“Ninguém quer recriar o mito da democracia racial”, disse Gian Melo.
Os autores ressaltam que a obra não nega a violência nem o racismo. A proposta é examinar como relações de poder, conflitos e adaptações participaram da formação cultural do Brasil, sem transformar a mestiçagem em justificativa para desigualdades raciais.








