“O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, acompanha a tentativa de um filho de reconstruir a história do pai, assassinado durante uma abordagem policial. Publicado pela Companhia das Letras, o romance tem 192 páginas e revisita relações familiares, experiências raciais e a formação de um homem negro em uma sociedade marcada pelo racismo.
O narrador começa a remexer nos objetos do pai e, a partir deles, refaz sua trajetória. Como não conhece todos os fatos, imagina acontecimentos que podem ter ocorrido. A busca funciona também como uma maneira de lidar com a ausência e compreender quem foi aquele homem, chamado de “você” durante boa parte da narrativa.
Uma identidade construída nas experiências
O pai, Henrique, é professor e, no início, não se reconhece como um homem negro. Essa percepção se desenvolve a partir de situações cotidianas, relações afetivas e episódios de preconceito. Em um dos relacionamentos, ele e uma namorada branca acreditam que o racismo não interfere no amor. Os olhares, cochichos e dúvidas sobre o casal, porém, passam a afetar a relação e mostram como a raça também atravessa a intimidade.
A obra expõe ainda preconceitos disfarçados de elogios e opiniões em relacionamentos de Henrique com pessoas brancas. As experiências fazem o narrador questionar o que significa ser negro e como a cor da pele influencia trabalho, sexo, relações e consequências das escolhas.
A linguagem é simples, embora a alternância entre as histórias do pai, da mãe e de outros personagens possa causar confusão em alguns trechos. O capítulo “A barca” exemplifica esse movimento, ao passar da infância do pai para o período em que ele é professor e, depois, para acontecimentos ligados à mãe.
O uso frequente de “você” cria proximidade e identificação. A ausência quase total de pontos de interrogação reforça a sensação de conversa, como se o leitor escutasse um amigo contar sua história. Com poucas descrições, a narrativa permite imaginar os acontecimentos e relacioná-los ao contexto social vivido.
A atuação de Henrique como professor também ocupa espaço importante. Os livros aparecem como instrumentos de descoberta e formação, tanto para ele quanto para seus alunos. Ao transmitir obras de Dostoievski, o professor influencia os estudantes, enquanto o próprio romance provoca no leitor uma busca pessoal por compreender a identidade negra.
A narrativa aborda violência, preconceito, relações raciais e dificuldades na docência. Para Sávio Augusto, estudante de Letras: Português na Universidade Federal de Goiás, a leitura não é brutal, mas próxima de situações sociais que podem parecer comuns. É justamente nessa simplicidade que o livro torna visíveis experiências atravessadas pela cor da pele.









