Jacques Fux aproxima Veneza e o sertão brasileiro em “Sertão-Veneza: Retornos e Travessias Roseanas”, livro publicado pela Autêntica, com 96 páginas. A obra parte das viagens e anotações de Guimarães Rosa para refletir sobre deslocamento, memória e linguagem, no ano em que “Grande Sertão: Veredas” completa 70º aniversário de publicação.
Fux recupera os Diários da Itália, escritos por Rosa durante a viagem que fez com Aracy, em 1949, de Milão a Veneza. Depois de 9 de outubro de 1949, segundo o autor, o olhar do escritor para a Itália e para a cidade italiana mudou. Veneza passa a ser lida como uma espécie de sertão insular, antigo e suspenso, percebido por um viajante atento às pequenas cenas do cotidiano.
A boiada e o retorno à infância
Em 28 de maio de 1952, Rosa iniciou outra travessia, pelo sertão de Minas Gerais. A viagem durou mais de 240 quilômetros e foi registrada nos cadernos “A boiada 1” e “A boiada 2”. Para Fux, esse percurso representava também um retorno às memórias da infância.
Entre bois, vaqueiros, plantas, rios e animais, o escritor aparece como alguém que não apenas se desloca, mas se transforma no caminho. A viagem pelo sertão ganha dimensão de ritual de passagem e de reencontro com a natureza. O mesmo observador dos diários italianos reaparece de bota e chapéu, mantendo o gesto de caminhar e registrar.
O livro também aproxima Rosa de Italo Calvino, Joseph Brodsky e Walter Benjamin. Fux conduz o leitor a “As Cidades Invisíveis”, “Marca d’Água” e “Rua de Mão Única”, formando uma rede de textos sobre viagens, lembranças e experiências difíceis de fixar em mapas ou diários.
A ideia central está no próprio “Sertão-Veneza”: a travessia importa mais do que um destino final. Veneza e o sertão aparecem como espaços de sonho, beleza, fragilidade, vida e morte. São lugares que escapam ao tempo linear e não se deixam compreender completamente por uma descrição objetiva.
Ao retomar a dúvida de Riobaldo sobre o conhecimento do sertão, Fux sugere que esse território só pode ser percebido de longe, como fazem os pássaros que observam tudo do alto. O olhar externo não resolve o mistério, mas permite enxergar aquilo que se perde quando a experiência é reduzida a um registro.
No fim, a imagem do retorno organiza o livro. O sertão-Veneza não precisa chegar até o leitor: é o leitor que volta a ele, repetindo sonhos e travessias. Fux transforma essa volta em convite para reler Rosa e seguir os caminhos que sua obra abre para outros livros, paisagens e formas de memória.








