A escolha do território, o levantamento das propriedades e a articulação política que permitiram a construção de Brasília começaram antes da chegada de Juscelino Kubitschek à Presidência. Essa trajetória é reconstituída pela arquiteta e pesquisadora Lenora de Castro Barbo na exposição “Brasília: o alicerce goiano de um sonho brasileiro”, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.
A mostra reúne mapas de expedições, propriedades, alternativas para o Distrito Federal, propostas do concurso do Plano Piloto e o quadrilátero que definiu a área da futura capital. A pesquisa de Lenora percorreu mais de cem relatos de viajantes e sistematizou dezesseis personagens ligados ao território que, mais tarde, seria incorporado ao Distrito Federal.
O território já era conhecido
A investigação volta aos séculos XVIII e XIX, com registros de rios, caminhos, relevos, povoações, propriedades e serras. Entre os personagens está Raymundo José da Cunha Matos, militar português que percorreu Goiás no século XIX e deixou descrições detalhadas da região.
Goiás foi separado administrativamente da capitania de São Paulo em 1748. Em 1750, apareceu o primeiro mapa da nova capitania da colônia portuguesa. A pesquisa atribui o traçado a Ângelo dos Santos Cardoso, e não a Tosi Colombina, como costuma ser repetido.
A ideia de levar a capital para o interior também atravessou diferentes períodos da história brasileira. Ela apareceu nas formulações associadas a Hipólito José da Costa e José Bonifácio, nas discussões do Império, nos estudos de Francisco Adolfo de Varnhagen e na Constituição de 1891, que determinou a reserva de uma área no Planalto Central.
Em 1892, a comissão chefiada por Luiz Cruls percorreu a região com astrônomos, geólogos, engenheiros, especialistas e militares. O grupo mediu altitude, rios, clima, coordenadas, solo e condições naturais. O trabalho resultou no quadrilátero que passou a orientar a localização da futura capital. Auguste Glaziou, integrante da segunda comissão de Cruls, também identificou características que permitiriam a formação de um lago artificial, antecipando a ideia do Lago Paranoá.
Goiás na disputa pelo local
Em 1922, a pedra fundamental da futura capital foi lançada em Planaltina, então território goiano. Décadas depois, a Segunda Guerra Mundial reforçou a preocupação com a segurança da sede do poder no litoral. A Expedição Roncador-Xingu, iniciada em 1943 durante o governo de Getúlio Vargas, foi associada ao reconhecimento e à ocupação do interior. Acary de Passos de Oliveira teve papel importante na condução terrestre da operação, e Vargas e Eurico Gaspar Dutra visitaram a base instalada em Aragarças.
Goiás ainda precisou enfrentar a alternativa de Minas Gerais, especialmente o Triângulo Mineiro. A escolha do território goiano ganhou forma em 15 de abril de 1955, quando a comissão presidida pelo marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque selecionou o Sítio Castanho com base no Relatório Belcher.
A partir daí, foi necessário levantar propriedades, examinar títulos, avaliar benfeitorias e negociar a transferência das terras. O governo de Goiás criou a Comissão de Cooperação para a Mudança da Capital Federal, presidida por Altamiro de Moura Pacheco. A Planta Índice Cadastral de Altamiro Pacheco e Joffre Parada, de 1958, registra casas, fazendas, estradas, construções e divisas da área.
A operação também contou com Bernardo Sayão e equipes responsáveis por conferir propriedades e documentação. Ao seguir coordenadas desses mapas, Lenora localizou dez construções anteriores a Brasília.
A articulação política
Emival Ramos Caiado participou das medidas relacionadas à transferência da capital e foi associado à iniciativa legislativa que fixou a mudança para 21 de abril de 1960. Registros oficiais também o identificam como presidente do Bloco Parlamentar Mudancista e responsável pela legislação da Novacap, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil.
Antes da posse de JK, o sítio estava escolhido, os estudos existiam e o processo fundiário avançava. Em novembro de 1955, o senador Jerônimo Coimbra Bueno aprovou Cr$ 120 milhões no orçamento de 1956 para a implantação da nova capital. Em 30 de dezembro, Juca Ludovico e Altamiro formalizaram, no Palácio das Esmeraldas, a operação das terras, que foram colocadas à disposição da União.
Em 1957, o concurso para o Plano Piloto recebeu propostas de Rino Levi, Vilanova Artigas, Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti, entre outros. O projeto vencedor foi o de Lúcio Costa. Oscar Niemeyer ficou responsável pela arquitetura monumental, com os cálculos estruturais de Joaquim Cardozo. Israel Pinheiro comandou a máquina executiva da Novacap, enquanto Bernardo Sayão participou da abertura de eixos como a Belém-Brasília. Mauro Borges aparece na exposição como parte da conexão entre a nova capital e Goiás.
Os candangos materializaram no barro vermelho o que antes existia em mapas e projetos. Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960, mas sua formação passou por mapas coloniais, comissões científicas, decisões políticas, negociação de terras e participação de personagens goianos.
A pesquisa de Lenora também se cruza com a trajetória de seu pai, Manuel Demósthenes Barbo de Siqueira, engenheiro ligado à cartografia da Codego. A lembrança dos mapas vistos nas pranchetas durante a infância ajudou a conduzir a pesquisadora de volta ao território de Goiás anterior à capital.








