GOIÂNIA — A psicanalista Isildinha Baptista Nogueira afirmou que pessoas brancas e negras são atravessadas pelo racismo, mas de maneiras distintas. Para ela, reconhecer essa diferença é essencial para compreender a formação do sujeito negro e os efeitos do racismo na subjetividade.
A declaração foi feita em entrevista realizada em 5 de junho de 2026, na Livraria e Clínica Dimensão, em Goiânia. Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo, Isildinha também atua como psicanalista clínica e viaja para falar sobre psicanálise e o sujeito negro.
Racismo, escravidão e desumanização
Na avaliação da psicanalista, o racismo não existe apenas como ideia: ele depende da ação de pessoas brancas e negras dentro de estruturas de poder. Ela destacou que pesquisas sobre a branquitude ajudam a investigar como o racismo também atravessa pessoas brancas.
Isildinha relacionou a escravização dos negros ao colonialismo e ao capitalismo. Segundo ela, a desumanização foi usada para transformar pessoas negras em mercadoria e criar mão de obra não remunerada. A escravidão, afirmou, foi organizada e não ocorreu por acaso.
A entrevistada diferenciou esse processo da escravização indígena, apontando que os povos indígenas conheciam o próprio território e resistiram de outras formas. No tráfico, pessoas africanas eram reunidas nos navios sem que compartilhassem língua e cultura, o que dificultava a organização coletiva.
O desejo de brancura
Autora de A Cor do Inconsciente, Isildinha define a brancura como o lugar associado à humanidade, à beleza, à razão, à ciência e à excelência. Ela afirma que a população negra foi afastada desse lugar e passou a viver sob o desejo de alcançá-lo.
A psicanalista também criticou interpretações históricas que atribuíam aos negros incapacidade de formar famílias ou insensibilidade à dor. Para ela, essas condições foram impostas pela escravidão, que impedia a criação de vínculos e permitia a separação de mães e filhos.
Ao tratar da Lei do Ventre Livre, Isildinha disse que as crianças não eram realmente livres, pois precisavam cumprir 20 anos de serviço ao senhor da fazenda antes da libertação.
Formação e escuta clínica
Isildinha contou que encontrou acolhimento na França durante sua formação e conviveu com Félix Guattari, Maud Mannoni, Françoise Dolto e Radmila Zygouris. Ela relatou que esses psicanalistas a tratavam como igual e a incentivavam a participar das discussões.
A experiência foi diferente com um de seus primeiros analistas, que atribuiu a sentimentos persecutórios a percepção de Isildinha sobre o racismo. Ela deixou o tratamento após ouvir que, no Brasil, o racismo não existia.
Hoje, a psicanalista coordena um grupo virtual de estudos e supervisão formado por jovens analistas negros. O trabalho aborda textos de Freud e a questão do sujeito negro, sem se apresentar como uma formação profissional.
A cor do inconsciente
Para Isildinha, o inconsciente tem cor porque o sujeito negro se constitui em condições históricas e sociais diferentes. A escravidão impediu a formação de famílias negras nos moldes europeus, produzindo outras configurações de parentalidade e autoridade.
Ela também afirma que crianças negras enfrentam falta de investimento narcísico e podem desenvolver estruturas narcísicas fragilizadas. Sem considerar os efeitos do racismo, a clínica corre o risco de transformar essa experiência em diagnóstico.
“A grande questão que faço, é importante que a gente se pergunte que racista sou eu?”, disse Isildinha. Para ela, o racismo continuará presente enquanto fizer parte da estrutura social, mas a consciência sobre esse atravessamento pode mudar a forma como ele é enfrentado.








