RIO DE JANEIRO — A Mineração Santa Edwiges, ligada a dois irmãos e a um filho do deputado federal Altineu Côrtes (PL-RJ), entregou cerca de 300 mil toneladas de saibro e granito para obras relacionadas à Secretaria estadual de Cidades do Rio de Janeiro. Os fornecimentos ocorreram enquanto Douglas Ruas comandava a pasta.
Os dados constam em relatórios encaminhados pela própria pedreira ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea), responsável pela fiscalização da licença ambiental da empresa. Altineu e Ruas negaram irregularidades.
Destino dos materiais
O material é utilizado na produção de asfalto. Em 2024, o maior destino informado pela Santa Edwiges foi o MUVI, corredor de ônibus em São Gonçalo associado à atuação de Douglas Ruas. Também houve fornecimento para uma obra de drenagem e pavimentação na Avenida 22 de Maio, em Itaboraí.
Somadas, essas duas frentes receberam 151 mil toneladas em 2024. A produção total da pedreira naquele ano chegou a 948 mil toneladas.
No ano seguinte, foram mais 143 mil toneladas destinadas ao MUVI e a uma obra de pavimentação no bairro Bom Retiro, em São Gonçalo. Nos documentos, os fornecimentos aparecem vinculados aos consórcios “Muv”, “Mobilidade 22 de Maio” e “Vieira Bom Retiro”.
As três obras custaram, juntas, R$ 766 milhões ao governo estadual, conforme notas técnicas da Secretaria de Cidades. Os documentos não informam quanto a Santa Edwiges recebeu pelos materiais.
Contratos e respostas
Os pagamentos começaram entre março e junho de 2023. Douglas Ruas assumiu a Secretaria de Cidades em setembro daquele ano, nomeado pelo governador Cláudio Castro (PL), e permaneceu no cargo até março de 2026. Durante o período, a pasta fez a maior parte dos pagamentos e assinou aditivos.
O contrato inicial do MUVI era de R$ 262 milhões. Em dezembro de 2023, recebeu acréscimo de R$ 8,1 milhões. Em agosto do ano seguinte, um novo aditivo acrescentou R$ 23 milhões.
Em nota encaminhada por Altineu, a Mineração Santa Edwiges afirmou que vendeu os materiais aos consórcios por valores abaixo da tabela Emop. A empresa também declarou que o saibro e o granito representavam menos de 1,5% do total dos contratos, percentual estimado em aproximadamente R$ 10 milhões.
“A Mineração Santa Edwiges esclarece, portanto, que jamais cometeu nenhum ilícito”, afirmou a empresa, que também negou exclusividade no fornecimento.
A assessoria de Douglas Ruas disse que cabe às empresas vencedoras das concorrências escolher os fornecedores. Também afirmou que não houve interferência na definição dos vendedores e que auditorias ou investigações poderiam ser realizadas.
A Santa Edwiges ainda contratou a Saur Construção, empresa de Douglas Ruas, para transportar agregados minerais. Entre 2024 e 2025, a transportadora recebeu ao menos R$ 1,5 milhão. Ruas declarou que a Saur atende apenas fornecedores privados e que não existe vinculação com contratos públicos.








