SÃO PAULO — Silas Corrêa Leite revisita memórias, relatos e referências históricas em Porto Garcia: no Quarto Escuro de Meu Ego Sem Respostas, romance publicado pela Caravana Grupo Editorial em 2025, com 209 páginas. A obra imagina uma colônia secreta próxima aos Campos Gerais do Paraná, território marcado por campos nativos, formações de arenito, agronegócio e heranças do tropeirismo.
Nascido em Monte Alegre (PR), atual Telêmaco Borba, e criado em Itararé, na divisa entre São Paulo e Paraná, o escritor transforma experiências e histórias de juventude em uma busca por uma espécie de refúgio ao sul do Equador. A ideia remete a Pasárgada, cidade persa idealizada por Manuel Bandeira (1886-1968) como espaço de liberdade.
O romance reúne narrativas encadeadas, com inspiração no universo de As Mil e uma Noites. A localização imaginária de Porto Garcia aparece associada a áreas entre Cerro Azul, Sengés, o Vale do Ribeira e os cânions dos Campos Gerais. No enredo, imigrantes europeus, especialmente polacos, chegam ao Brasil pelo porto de Santos e seguem para o interior, até encontrar uma região isolada e fértil.
Uma comunidade fora do tempo
A formação do lugarejo também incorpora descendentes de indígenas, afrodescendentes, quilombolas, moradores que escaparam de conflitos e diferentes grupos ligados à ocupação do Paraná. O autor relaciona o surgimento da colônia ao ano de 1853, quando a província do Paraná se emancipou de São Paulo, e menciona uma colônia agrícola apoiada pela princesa Isabel Cristina (1846-1921), filha de Dom Pedro II (1825-1891).
Em Porto Garcia, a vida comunitária se organiza pela mistura de religiões, culturas e costumes. O romance descreve uma sociedade em que a propriedade individual teria sido abolida e os habitantes compartilhariam a produção e o consumo. A cidade funciona como uma promessa de convivência em meio a um mundo conturbado.
Entre as histórias está a trajetória de Reinaldo, personagem negro que se forma em Direito, torna-se professor universitário e alcança a carreira acadêmica, mas não realiza o sonho de ser juiz. O livro associa sua trajetória ao preconceito racial e mostra sua posterior conversão ao neoevangelismo luterano, seguida da atuação como pregador.
A trajetória do autor
Com mais de 30 livros publicados, Silas Corrêa Leite atua como escritor, poeta, letrista, professor, bibliotecário, desenhista, jornalista e ensaísta. Começou a escrever aos 16 anos, em Itararé, e trabalhou como garçom, marceneiro, engraxate, boia-fria e vendedor de doces antes de ser aprovado para uma vaga de locutor em uma rádio local.
Em 1970, mudou-se para São Paulo. Formou-se em Direito e Geografia, especializou-se em Educação e cursou pós-graduação em áreas como Filosofia, Jornalismo Comunitário e Literatura na Comunicação. Também lecionou Geografia na rede pública e em escolas privadas.
Entre seus livros estão Campo de trigo com corvos, Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do rio Itararé, O Marceneiro – a última tentativa de Cristo, Desjardim – muito além do farol do final do mundo, Ensaios gerais e O sequestro do sonho. Seus trabalhos também aparecem em mais de cem antologias, inclusive em publicações internacionais.
Em Porto Garcia, o autor combina invenção, memória e pesquisa para recontar a origem de uma comunidade formada por múltiplas etnias. A linguagem aposta em expressões populares, neologismos e palavras de sentidos variados para construir uma epopeia sobre a formação de um povo e de um lugar imaginário.








