Paula, nome fictício usado para preservar sua segurança, passou 12 anos em um relacionamento marcado por agressões físicas e verbais. Depois de três medidas protetivas, deixou a casa com os filhos, concluiu a faculdade de Direito e foi aprovada no exame da OAB na primeira tentativa.
Ela conheceu o ex-marido depois de se separar do primeiro casamento. Na época, morava com os filhos em uma casa de madeira, em uma comunidade. Os dois se casaram em 2013. Seis meses depois, começaram as agressões. Em uma ocasião, ele quebrou duas costelas dela.
Durante o relacionamento, Paula trabalhava para sustentar a casa e tentava estudar. A dificuldade financeira fez com que interrompesse o curso várias vezes. Quando conseguiu entrar na Universidade Anhembi Morumbi para terminar o último semestre, seu objetivo era se formar e deixar uma referência para os filhos.
A mudança veio com o apoio recebido na instituição. Uma professora, coordenadora do curso de Práticas Jurídicas, percebeu que Paula não estava bem, conversou com ela e mobilizou pessoas para oferecer ajuda jurídica e psicológica. “Calma, eu estou com você. Você não está sozinha”, dizia a professora quando Paula desabava.
Antes disso, em outra faculdade, um reitor havia afirmado que a violência doméstica era um problema social e não dizia respeito à universidade. Paula deixou a instituição.
A saída de casa
As duas primeiras medidas protetivas não afastaram o ex-marido. Com o incentivo da equipe da Anhembi Morumbi, ela pediu uma terceira. Como ele não saía de casa, Paula foi embora com os filhos e algumas roupas. Primeiro, ficou em uma pensão; depois, mudou-se para uma ocupação.
O filho começou a trabalhar, e a família conseguiu alugar um apartamento. A professora também ajudou Paula a iniciar a documentação para receber a pensão da filha. O caso continua na Justiça.
Mesmo após a separação, o ex-marido a perseguiu. Paula registrou outro boletim de ocorrência depois que ele ameaçou matar a filha, hoje com 11 anos, e depois tirar a própria vida. Em uma tarde, ele buscou a menina na escola e desapareceu com ela. A secretaria foi acionada e ajudou na resolução do caso.
Aos 51 anos, Paula afirma que quer retribuir o apoio recebido. Ela começou a atuar na advocacia e atende uma mulher vítima de tentativa de feminicídio. O agressor está preso, e a vítima tenta recuperar os filhos.
Uma senhora disponibilizou uma sala para o trabalho, que ainda precisa ser mobiliada. Paula diz que quer mostrar a outras mulheres que existe uma saída quando elas encontram apoio. “Se não fosse o grupo de pessoas da faculdade, eu nem estaria mais viva”, afirmou.








