Rio de Janeiro, Quarta-feira, 23 de setembro de 2026
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Apostas online aprofundam dívidas e violência contra mulheres nas periferias
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Apostas online aprofundam dívidas e violência contra mulheres nas periferias

Pesquisa no Território do Bem, em Vitória, mostra impactos dos jogos de azar nas relações familiares e no patrimônio das mulheres.

Um estudo realizado no Território do Bem, em Vitória, no Espírito Santo, relaciona o avanço das apostas online ao endividamento, à violência doméstica e à perda de patrimônio em famílias periféricas. A pesquisa foi conduzida por David Nemer, antropólogo da tecnologia e professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, com apoio da equipe da Tec Perifa.

Entre 2023 a 2025, o pesquisador acompanhou os efeitos dos jogos de azar em comunidades do centro-oeste de Vitória. Em 2019, mais de 84% das famílias da região viviam com menos de três salários mínimos. Nesse cenário, o dinheiro usado nas plataformas muitas vezes era retirado de despesas básicas, como a compra de fraldas e gás.

Dívidas e conflitos dentro de casa

Segundo Nemer, as perdas alteram a rotina familiar e podem levar a separações e crises conjugais. “Os próprios homens descrevem um roteiro conhecido, em que a perda [do dinheiro apostado] leva ao bar, o bar ao silêncio em casa e o silêncio à briga”, afirmou o pesquisador.

As mulheres aparecem entre as mais afetadas. Algumas recorrem aos aplicativos para tentar complementar a renda, enquanto outras enfrentam prejuízos causados por companheiros ou familiares. Uma manicure acompanhada pelo estudo mantinha onze aplicativos de aposta no celular.

Em outro caso, uma faxineira perdeu uma reserva acumulada durante 20 anos depois de compartilhar a senha bancária com o filho. Ele perdeu 20 mil reais em apostas no Tigrinho. Também houve o relato de uma mãe que começou discutindo com o filho por causa do vício e acabou endividada pelos próprios jogos.

A pesquisa identificou diferenças na forma como homens e mulheres entram nesse mercado. Os homens costumam chegar às apostas por meio do futebol e apostar em público. As mulheres aparecem mais ligadas aos jogos de cassino, como o Tigrinho, em intervalos do trabalho doméstico.

Violência patrimonial

Em um dos episódios analisados, uma trabalhadora da limpeza perdeu o salário ao tentar aumentar a renda. Depois de contar ao marido, passou a ter o dinheiro controlado por ele, que também ficou com o pagamento do mês seguinte.

Outro relato envolve uma transferência de R$ 400 feita pelo marido, via Pix, sem autorização. O valor foi perdido em apostas em cerca de meia hora. Depois, ele danificou o celular da mulher, segurou o braço dela e disse que mandava na casa. Ela relatou que ficou com o braço roxo e afirmou que hoje os dois estão separados.

O estudo também registrou o caso de uma comerciante que perdeu as lojas, contraiu dívida com um agiota e foi abandonada pelo marido, que levou o filho. Ela adoeceu e morreu internada enquanto ainda era cobrada.

Para Nemer, as apostas funcionam como uma estrutura financeira paralela em áreas onde as famílias já recorrem a empréstimos entre vizinhas e ao compartilhamento de senhas bancárias. Entre as 67 pessoas ouvidas pelo pesquisador e pela Tec Perifa, nenhuma defendeu a indústria de jogos online.

Texto produzido pela Redação Arena em Foco com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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