RIO DE JANEIRO — O podcast Quando são elas que traem, da produtora Central 3, reúne, em nove episódios, relatos de mulheres que traíram parceiros ou parceiras. Com nomes e detalhes alterados para preservar a identidade das entrevistadas, a série aborda desejo, autonomia, paixão, culpa e os riscos ligados à infidelidade feminina.
A proposta é ouvir as protagonistas de histórias que, na literatura, no cinema e na televisão, costumam ser narradas por homens. Entre os depoimentos estão os de Mariana, uma executiva que, aos 30 e poucos anos, mantinha amantes em diferentes cidades do Brasil durante viagens de trabalho; Margô, de 73 anos, que se apaixonou por outro homem enquanto era casada; e Denise, de 39 anos, que associava o risco de ser descoberta ao prazer.
Desejo, paixão e autonomia
Para a psicóloga e terapeuta sexual Ana Canosa, a possibilidade de separar sexo e afeto é uma descoberta recente para as mulheres. Ela relaciona essa mudança à forma como elas passaram a ocupar o mundo e ao domínio sobre o próprio corpo.
Mariana viveu por cinco anos um caso com Rogério, um diretor de cinema. A relação teve declarações de amor, momentos românticos e períodos de afastamento. A paixão fez com que a experiência deixasse de ser apenas uma forma de autonomia e se tornasse fonte de sofrimento, até que ela decidiu encerrá-la.
Margô também precisou reorganizar a própria vida depois de se apaixonar. Casada com o primeiro namorado e mãe de dois filhos pequenos, ela enfrentou o conflito entre o vínculo familiar e o novo relacionamento. Ao conversar com o marido, descobriu que ele também havia tido casos, mas afirmou nunca ter se apaixonado.
“Ele foi uma lanterna”, disse Margô ao falar sobre o amante.
A traição em relações abertas
O podcast também mostra que a infidelidade pode aparecer em relações não monogâmicas. Amanda decidiu abrir o casamento depois de viver o puerpério durante a pandemia, período que fortaleceu o vínculo familiar, mas reduziu o desejo do casal. O relacionamento passou a ter regras, e uma delas era não se apaixonar.
A psicanalista e pesquisadora de relacionamentos Carolina Tilkian afirma que casais não monogâmicos também traem. Para ela, abrir a relação pode ser uma tentativa de lidar com o medo de que o parceiro se apaixone por outra pessoa, mas nenhuma configuração impede que sentimentos surjam.
Fantasia e risco real
Denise relatou que fantasiava, desde a adolescência, a possibilidade de ser flagrada. Já adulta, teve relações enquanto o marido estava em casa e também buscou situações em que o companheiro pudesse descobrir. O prazer, porém, convivia com a percepção de que fazia algo errado.
A ameaça não fica apenas no campo da fantasia. Levantamento do Instituto de Segurança Pública apontou que, em 2025, 27,3% dos feminicídios registrados no estado do Rio de Janeiro foram motivados por ciúme ou desconfiança de traição.
Ana, professora de dança aposentada de 60 anos, foi ameaçada com uma faca ao pedir o divórcio e espancada pelo marido meses depois. Após sair da relação, passou a viver um relacionamento que descreveu como marcado por desejo e companheirismo.
Os relatos não tratam a infidelidade como solução nem colocam a responsabilidade da traição sobre o parceiro, segundo Canosa. Para muitas entrevistadas, atravessar a fronteira da fidelidade significou entrar em contato com a própria individualidade e se perceber de outra maneira.








