SÃO PAULO — O documentário Yanuni (2025) acompanha a trajetória de Juma Xipaia, primeira cacica mulher do povo Xipaia, entre a defesa da floresta, as ameaças sofridas e os desafios da maternidade. Coproduzido por Leonardo DiCaprio, o filme percorre seis anos da vida da líder indígena, do Xingu, no Pará, ao Ministério dos Povos Indígenas, em Brasília, e de volta para casa.
A história começa com uma previsão feita por Juma em 2009, quando tinha 18 anos: “Minha vida vai ser sempre luta”. A frase é retomada na produção, que também registra a atuação da indígena contra queimadas, garimpo ilegal, contaminação dos rios e outras pressões sobre a Amazônia.
Ameaças e resistência
Juma conta que precisou trancar o curso de Medicina na UFPA depois de sofrer ameaças e atentados. Ela também viveu exilada por um ano, sob segurança da ONU. Mesmo com a projeção internacional, familiares ainda recebem ameaças relacionadas ao valor oferecido por sua cabeça.
A equipe do filme a procurou depois de uma tentativa de assassinato. Inicialmente, Juma recusou participar para proteger os filhos, mas aceitou o convite de Richard Ladkani, diretor austríaco que passou meses aprendendo português. Ela entrou no projeto como produtora e quis que o documentário amplificasse a voz das mulheres da Amazônia.
No ano seguinte, Juma viajou com a equipe para a COP26, na Escócia, onde conheceu DiCaprio. O ator ajudou a levantar o primeiro terço do financiamento e coproduziu a obra. Depois do encontro, publicou uma foto com a ativista e declarou: “As palavras de Juma vão ficar comigo para sempre”.
O filme também revela a dimensão íntima dessa trajetória. O nascimento de sua filha, Yanuni, aparece ao lado da canção de ninar que Juma sussurrou sob uma castanheira. Por segurança, ela usava um microfone escondido na roupa durante as gravações.
A família ainda precisou se mudar para uma casa protegida por câmeras e cerca elétrica. Para Juma, o espaço seguro também significava distância da terra e da rotina dos filhos. Em 2023, após ser nomeada primeira secretária de Direitos Indígenas do Brasil, ela deixou o cargo e voltou para Altamira, descrita como uma das cidades mais violentas do Brasil.
De volta ao seu território, Juma afirma que não quer viver como fugitiva. Para ela, proteger a terra indígena também significa proteger o mundo.








