Rio de Janeiro, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026
O jogo, o bastidor, o placar
A Centopeia de Neon transforma caos em revelação e recomeço
Brasil

A Centopeia de Neon transforma caos em revelação e recomeço

Romance de Edival Lourenço mistura Bíblia, música, violência e delírio para reorganizar os restos de diferentes tradições culturais.

A Centopeia de Neon, de Edival Lourenço, usa o apocalipse como revelação, não apenas como imagem de destruição. O romance combina grotesco, humor, fantasia, violência, música e referências culturais para expor o que permanece oculto por trás da aparente desordem.

Edival Lourenço, membro da Academia Goiana de Letras, constrói a narrativa a partir de quatro citações apresentadas no prólogo. Elas funcionam como chaves de leitura para os quatro capítulos e antecipam temas como dominação, resistência, fé, violência e transformação.

A primeira referência vem de Tácito: “omne ignotum pro magnifico”. A ideia de que o desconhecido tende a ser visto como magnífico aparece ligada à assimilação de hábitos romanos pelos britânicos. O domínio se torna mais sofisticado quando o dominado passa a desejar os símbolos culturais do dominador.

A segunda citação, de Thiago de Mello, convoca a imagem dos girassóis que florescem dentro da sombra. O romance não trata apenas da ditadura militar iniciada após a deposição de João Goulart. A questão central está no indivíduo e na linguagem diante de uma sociedade que normaliza autoridade e violência. A sombra não elimina a vida: torna sua resistência mais evidente.

As outras referências vêm do livro de Ezequiel e do Gênesis. Querubins, cavaleiros do Apocalipse e criaturas rastejantes são colocados em contato para deslocar certezas do leitor. A centopeia, um artrópode da classe Chilopoda, aparece como imagem de um organismo formado por partes diversas, aparentemente desconexas, mas pertencentes a uma mesma estrutura.

Quatro figuras do caos

Sidrake de Thorteval Gahy, o Sinistro, o lobby-man, aproxima-se do primeiro cavaleiro, associado à conquista. Sua força está no dinheiro, na influência, nas relações institucionais e nos negócios. O pai morre acreditando ser Napoleão, enquanto o filho transforma a fantasia imperial em capacidade de manipulação.

O sargento Danton Mumbeka remete ao segundo cavaleiro, ligado à espada e à retirada da paz. Ele atua como mordomo, motorista, guarda-costas, confidente e comandante de operações especiais da STG Lobby S/C. Também encarna a maldição de Tântalo: deseja o luxo, mas permanece servindo aos donos do poder e do dinheiro.

Jerônimo Joaquim dos Santos Neto, o Jeromão, ocupa o campo do terceiro cavaleiro, associado à balança. Enganado por traficantes que afirmam pertencer aos Beatles, ele transporta um violão com cocaína e acaba envolvido no tráfico. Sua trajetória leva a personagem da terra que produz alimentos à economia baseada em peso, medida, preço e distribuição de drogas.

A quarta figura se distribui pela trajetória de Romã e, principalmente, de Rodolfo Távora Ionesto. O interesse de Rodolfo por uma propriedade no Centro-Oeste transforma uma disputa econômica em violência organizada sob a aparência da legalidade. A história de Romã é marcada por mortes, destruição profissional e isolamento social, mas ela também passa a enxergar aquilo que os outros não veem.

A centopeia que voa

A visão de Romã aproxima loucura e revelação. Chelo, o Arcanjo São Gabriel e o anúncio do Miscigênito levam o romance para além do realismo. A imagem das naves reunidas, com brilho azul-fluorescente, forma a centopeia de neon que dá título à obra.

A centopeia não representa uma metamorfose individual. Ela surge da reunião de partes diferentes, como o próprio romance, que reorganiza cristianismo, mitologia greco-romana, Beatles, Vivaldi, Marmalade, Pink Floyd, imprensa, narcotráfico, cultura popular, ficção científica, sexualidade e experiência autobiográfica.

No desfecho, a criatura associada ao chão voa. O rastejante se torna luminoso e aéreo; o grotesco se transforma em possibilidade de revelação. A imagem também dialoga com a lembrança de letras vistas como “formigas no papel”, reunindo multiplicidade e organização em um único corpo.

Romã declara: “Não havia mais eclipses: nem o da lua nem o meu”. A frase encerra o ciclo de sombras e retoma o símbolo do girassol. A luz continuava existindo, embora estivesse bloqueada. O fim do eclipse não significa que a violência desapareceu: Danton ainda segue Romã, e a ameaça de uma Operação Herodes permanece.

O romance, portanto, não termina com a História encerrada. A estrutura mistura criação, Apocalipse, anunciação, Herodes e um nascimento futuro em uma temporalidade circular. Depois do inverno, outra primavera pode começar. A esperança aparece como a última fronteira da caixa de Pandora, enquanto a centopeia reúne os restos de tradições diferentes e os transforma em uma nova forma de conhecimento da realidade.

Texto produzido pela Redação Arena em Foco com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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