Albert Camus escreveu “A Peste” entre 1943 e 1947, durante a ocupação nazista e a efervescência política e cultural da França. Publicado em 5 de junho de 1947, o romance usa uma epidemia como metáfora para denunciar o nazismo e refletir sobre diferentes formas de totalitarismo e autoritarismo.
A trama se passa em Orã, cidade atingida pela epidemia de cólera de 1849, que inspirou Camus na construção da narrativa. O escritor, argelino e filho de uma analfabeta e viúva de guerra, pesquisou pestes que atingiram a Argélia ao longo da história.
Resistência e conflito político
Enquanto trabalhava no romance, Camus também atuava no jornalismo e escrevia sobre a reconstrução da Europa, a ética política e a necessidade de enfrentar os totalitarismos. Ele participou do debate intelectual francês após a saída das tropas alemãs, quando escritores criaram redes clandestinas e editoras subterrâneas para escapar da censura.
Camus defendeu a liberdade de expressão durante a divisão provocada pela execução de Robert Brasillach, escritor fascista. Louis-Ferdinand Céline e Lucien Rebatet foram citados entre os intelectuais presos ou exilados sob acusação de colaboração com o nazismo.
O período também foi marcado pela influência de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Sartre publicou “O Ser e o Nada” em 1943 e proferiu a conferência “O existencialismo é um humanismo” em 1945. A revista “Les Temps Modernes”, fundada em 1945, ajudou a consolidar a ideia do intelectual engajado, com a participação de Sartre, Beauvoir e Maurice Merleau-Ponty.
O Partido Comunista Francês ganhou força por sua participação na resistência ao nazismo e atraiu nomes como Louis Aragon e Pablo Picasso. Nesse ambiente, Camus se afastou de Sartre ao rejeitar uma esquerda disposta a justificar os meios em nome dos fins, incluindo os campos de concentração da URSS comunista.
A peste como alerta
O romance chegou às livrarias com uma edição de 22 mil exemplares. Dez dias depois, uma nova edição, com o mesmo número de exemplares, foi exigida. Até setembro, foram vendidos mais de 52 mil exemplares, além das edições anteriores. A obra rendeu a Camus o Prêmio dos Críticos e rápida notoriedade.
Entre os personagens, o dr. Bernard Rieux enfrenta a doença mesmo sem certeza sobre os resultados; Jean Tarrou organiza o trabalho voluntário; Raymond Rambert abandona a busca pela esposa para participar do combate coletivo; e Cottard lucra com o mercado negro. O padre Paneloux tem a fé abalada diante da morte de uma criança.
Roland Barthes criticou o uso da fábula por Camus, argumentando que uma peste biológica teria causas naturais e exigiria solidariedade. Para o autor, porém, os regimes totalitários são produzidos pela irresponsabilidade humana e precisam ser combatidos com resistência ideológica.
A leitura apresentada é de que a peste não desaparece definitivamente. Ela pode retornar quando encontra espaço nas instituições e entre aqueles que lucram com o caos. Por isso, a obra permanece associada à defesa da justiça, da solidariedade e da participação coletiva diante da violência.
O romance também sustenta que a esperança, sozinha, não basta. É preciso agir contra a acomodação, a clausura e a aceitação do mal. A advertência central é que ninguém está protegido enquanto os flagelos atingirem os demais: a reação humana depende do reconhecimento de que a ameaça pode alcançar todos.








