Rio de Janeiro, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026
O jogo, o bastidor, o placar
Romance de Valter Hugo Mãe usa vila portuguesa para expor desigualdades
Brasil

Romance de Valter Hugo Mãe usa vila portuguesa para expor desigualdades

Em uma narrativa fabular, o escritor combina crítica social, neologismos e personagens inspirados em Italo Calvino.

A Malandrinha, propriedade centenária que concentra riqueza, prestígio e poder, domina a vida de uma vila portuguesa sem nome em “O Século dos Imbecis”, romance de Valter Hugo Mãe lançado em julho de 2026 pela Biblioteca Azul. Com 339 páginas, o livro transforma as relações entre nobres e moradores em uma alegoria sobre a ignorância e as contradições sociais.

O marquês Agilulfo, dono da casa, tem sua fragilidade mental celebrada em público e criticada em particular. Ainda assim, os habitantes permanecem fascinados pelo luxo do casal de marqueses e submetidos às relações de poder estabelecidas pelo nobre. O narrador observa, com sarcasmo, o autoritarismo, o conservadorismo, os interesses pessoais e a falta de senso crítico que atravessam a comunidade.

A trama é narrada em terceira pessoa e se passa em um período indefinido entre presente e passado. A vila fica ao pé de uma montanha sem nome, cenário que também funciona como imagem do conhecimento: a inteligência do marquês cresce durante a subida e desaparece conforme ele retorna. O misterioso cofre e o sumiço da marquesa ampliam o aspecto fabular da história.

A obra também dialoga com Italo Calvino, a quem é dedicada. Personagens de “O Cavaleiro Inexistente” (1959) servem de referência para nomes como Paciasso, Martinbon, Omobom, Omobestia, Agilulfo, Bertrandino dos Guildiverni e Gurdulù. Outros personagens são identificados por suas funções, entre eles a Criada, a Marquesa, a Pessivista, o Presidentês, a Presidentesa, a Coveira, a Pasteleira e a Mulher Torta.

A linguagem é marcada por neologismos, termos regionais e uma nomenclatura própria. No início, o autor avisa que não seguirá o Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa de 1995. A construção se aproxima de uma fábula, mas mantém no centro os conflitos sociais e as desigualdades.

O julgamento de Omobom e Omobestia expõe uma inversão moral: o personagem considerado bom recebe uma condenação maior por conhecer a verdade, enquanto o mau encontra compreensão por ser visto como naturalmente inclinado ao erro. A Igreja Católica também aparece na narrativa. A pedido da população, o padre canoniza a estátua da Justiça, que passa a ser chamada de Nossa Senhora da Justiça, enquanto seu relacionamento com a Coveira é conhecido por todos.

A origem da riqueza da Malandrinha é associada à exploração das riquezas do Brasil e à escravidão durante a época colonial. O nome da propriedade carrega, assim, uma ironia sobre a formação do patrimônio da nobreza portuguesa e sua transmissão entre gerações, em contraste com a luta contínua dos pobres contra o status quo.

A Criada assume papel decisivo após o desaparecimento dos marqueses. A mudança de comando abre caminho para um concerto entre as classes sociais, que dá à Malandrinha uma destinação humanitária e encerra a narrativa com uma perspectiva utópica ligada a ideias progressistas.

A comparação com Honoré de Balzac aparece como referência ao projeto de observar a sociedade por meio da literatura. Em “La Comédie Humaine”, cuja edição brasileira tem 17 volumes, Balzac retratou o homem burguês em uma sociedade em transformação. Valter Hugo Mãe realiza uma leitura mais breve e leve do mundo contemporâneo, preservando a crítica às estruturas sociais e aos equívocos de uma comunidade incapaz de avaliar a si própria.

Texto produzido pela Redação Arena em Foco com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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