A frase atribuída a Egito Gonçalves, poeta, editor e tradutor português, transforma o olhar em uma tarefa diante do tempo, da morte e da memória. Ela aparece associada à edição de Três Poetas Húngaros, publicada em 1991 pela Limiar/Lumiar. A autoria, porém, é apresentada como uma atribuição.
O verbo no futuro indica uma promessa: ainda não foi visto tudo, mas existe o compromisso de observar. O advérbio que acompanha essa ação afasta a visão rápida e utilitária. Trata-se de permanecer diante das coisas, conceder tempo a elas e reconhecê-las como dignas de atenção.
O esquecimento surge como destino possível, mas a frase o apresenta de maneira incomum: seria preciso merecê-lo. Antes do apagamento, haveria uma última tarefa, a de olhar tudo com demora. Assim, a formulação se aproxima de uma pequena ética da atenção, contrária à pressa e à distração.
A reflexão também pode ser relacionada à filosofia. Em Platão, a alegoria da caverna descreve uma transformação do olhar, enquanto Aristóteles associa o pensamento filosófico ao espanto diante do que parecia banal. Olhar longamente, nesse sentido, é reaprender a perceber o mundo.
A dimensão temporal aparece ainda no diálogo com Santo Agostinho. O futuro se manifesta como expectativa, o presente como presença e o esquecimento como antecipação da perda. Em Heidegger, a consciência da finitude marca a existência humana. A resposta da frase à morte, porém, não é o desespero, mas a atenção.
Montaigne oferece outra aproximação ao observar a experiência ordinária como matéria de pensamento. Walter Benjamin, por sua vez, ajuda a compreender o contraste entre a aceleração da vida moderna e a tentativa de preservar imagens, vestígios e memórias. A poesia não impede a morte das coisas, mas pode resguardar algo delas contra o silêncio.
A relação com Allan Kardec acrescenta uma dimensão cristã-espírita. Em O Livro dos Espíritos, especialmente nas questões 392 e 393, o esquecimento do passado é apresentado como condição para o recomeço e para o exercício das escolhas morais. Nessa perspectiva, esquecer não significa necessariamente perder tudo: a experiência pode permanecer como aprendizado e transformação.
A frase, então, propõe uma forma de viver: prestar atenção às pessoas, à cidade, à paisagem, à velhice, à infância e às experiências que normalmente passam despercebidas. Não se trata de controlar a duração da vida, mas de qualificar a presença dentro dela.
O sujeito não promete vencer o esquecimento nem afirma que será lembrado. Promete apenas olhar. A força da frase está nessa humildade: antes de desaparecer da memória, é preciso ter estado verdadeiramente diante do mundo. A experiência nasce dessa demora, e aquilo que transforma pode permanecer, mesmo quando nomes, rostos e acontecimentos deixam de ser recordados.









