Rio de Janeiro, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026
O jogo, o bastidor, o placar
As marcas deixadas nas mulheres que fizeram a arte moderna
Foto: Renata Zambello Furtado/Divulgação
Entretenimento

As marcas deixadas nas mulheres que fizeram a arte moderna

Gabriela Prioli revisita Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Pagu para refletir sobre liberdade, julgamento e sobrevivência.

Em janeiro de 2025, diante da retrospectiva de Tarsila do Amaral no Museu de Luxemburgo, Gabriela Prioli refletiu sobre o espaço conquistado — e o preço pago — por mulheres que tentaram se afirmar como artistas modernas.

A mostra, intitulada Tarsila do Amaral: Peindre le Brésil moderne, foi a primeira retrospectiva dedicada à artista brasileira na França. Prioli visitou a exposição durante uma viagem de trabalho, dois dias depois de comemorar seu aniversário. Sua filha tinha então dois anos e havia ficado no Brasil.

Tarsila tinha os mesmos 39 anos de Prioli quando fez sua primeira exposição individual em Paris, em 1926. Com orientação do poeta Blaise Cendrars, escolheu uma galeria na Rue La Boétie, e ele assinou o catálogo. A artista precisou negociar sua posição de brasileira em uma cidade que se apresentava como centro da arte moderna. O Brasil, para aquele ambiente, era associado ao tropical, ao popular e ao exótico.

A outra barreira era ser mulher. A imagem do artista moderno estava ligada à boemia, à transgressão, aos amores e à vida noturna. Já das mulheres se esperava respeitabilidade e obediência às convenções. Circular pela cidade sem ser observada e estar disponível para o mundo eram liberdades que não lhes eram oferecidas da mesma forma.

Prioli reconhece essa contradição na própria experiência. Embora pudesse caminhar sozinha por Paris e entrar em um museu, carregava consigo as responsabilidades da filha, do trabalho, da casa e das decisões. Estava em muitos lugares, mas nem sempre conseguia estar inteiramente presente.

Anita Malfatti e Pagu

A leitura de Mulheres Modernistas: estratégias de consagração na arte brasileira, da professora Ana Paula Cavalcanti Simioni, levou a reflexão até Anita Malfatti. Em 1917, a artista apresentou em São Paulo trabalhos com corpos nus e eróticos. A crítica de Monteiro Lobato recebeu aquela produção como deformação e anormalidade.

Anita continuou pintando, mas seus cadernos íntimos preservaram uma liberdade que nem sempre aparecia nas obras mostradas ao público. Em A Mulher do Pará, a personagem que surgia nua nos primeiros desenhos terminou coberta e recatada.

A frase “Tenho várias cicatrizes, mas estou viva” pertence a Patrícia Galvão, a Pagu. Ela militou, foi presa, escreveu, traduziu, viajou e atravessou fronteiras políticas, intelectuais e sexuais. Ainda assim, sua liberdade não consolidou a imagem de um gênio. Para muitos, Pagu acabou reduzida ao papel de amante de Oswald de Andrade.

Anita negociou com as convenções e correu o risco de desaparecer atrás da contenção. Pagu rompeu com elas e foi transformada em personagem pela própria transgressão. Para Prioli, as duas experiências revelam como mulheres diferentes podem ser enquadradas pelo mundo — e como todas pagam algum preço para chegar até aqui.

“Temos, todas, as nossas cicatrizes. E continuamos vivas.”

Texto produzido pela Redação Arena em Foco com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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