A sexualidade de pessoas LGBTQIA+ com deficiência ainda é marcada por apagamento, infantilização e fetichização. Além do capacitismo, elas enfrentam preconceitos relacionados à orientação sexual e à identidade de gênero, com barreiras em aplicativos, festas, relacionamentos e espaços da própria comunidade LGBT+.
No Brasil, cerca de 18,6 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência, conforme a PNAD Contínua 2022, do IBGE. Para a psicóloga Mayara Tesser, a falta de reconhecimento da vida adulta dessas pessoas aparece em expressões que as tratam como eternas crianças ou seres assexuados. Quando o desejo é admitido, também pode surgir a redução da pessoa à curiosidade ou ao fetiche.
A psicóloga afirma que a educação sexual oferecida a jovens com deficiência costuma ser nula ou superficial. Quando existe, fica concentrada na prevenção de doenças e deixa de abordar prazer, afeto, diversidade de gênero e orientações sexuais. A superproteção familiar também pode limitar a privacidade necessária para paquerar, namorar e conhecer o próprio corpo.
Nesta segunda-feira (21), a Globo exibe o especial Falas de Acesso, que inclui o documentário Assexybilidade. Dirigido por Daniel Gonçalves, o filme reúne entrevistas com ativistas, atrizes e apresentadores PCD sobre desejo, relacionamentos, namoro, capacitismo e autonomia afetiva.
Desejo e autonomia
Nos relatos, as entrevistadas descrevem a dificuldade de serem vistas como adultas capazes de desejar, escolher e estabelecer relações. Ana Clara Moniz conta que passou muito tempo acreditando que nunca seria desejada. Ela também afirma que precisar de ajuda física não elimina sua capacidade de tomar decisões, cuidar da própria vida e construir uma relação.
Maria Paula Vieira destaca que a deficiência não substitui a libido nem impede fantasias, beijos, sexo, flertes ou o uso de aplicativos. Para ela, autonomia sexual inclui decidir sobre o próprio corpo, estabelecer limites e escolher com quem se relacionar, sem ser selecionada por pena ou curiosidade.
Priscila Siqueira, fundadora da Vale PCD, diz que a ausência de referências pode fazer uma pessoa acreditar que está errada. Ela aponta problemas como festas inacessíveis, banheiros inadequados, padrões estéticos excludentes e aplicativos que alternam entre fetichização e descarte.
Rafa Brunelli relata que passou a reconhecer a própria deficiência e, depois, a identidade como mulher trans. Esse processo mudou a maneira como enxergava seu corpo e permitiu que ela se percebesse como alguém que pode ocupar lugares de afeto e sexualidade.
Fabi Carol afirma que sua voz também expressa autonomia quando o corpo não permite determinada ação. Já Giovanna Massara, que se identifica como pansexual, conta que precisou enfrentar a culpa associada ao desejo e a insegurança com o próprio corpo.
Gata de Rodas relata ter sido tratada como criança até a vida adulta e afirma que a acessibilidade é fundamental para circular, trabalhar, se divertir e viver os próprios desejos. Ela também conta que levou pessoas com deficiência à Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo em 2017.
Para Mayara Tesser, a reconstrução da autoestima erótica passa pela psicoeducação, pela desconstrução da ideia de que o prazer depende de um corpo idealizado e pelo reconhecimento do próprio corpo como legítimo para a intimidade. A psicóloga também cita possibilidades de exploração sexual que vão além da penetração, como toque, estímulo sensorial, afeto e comunicação aberta.
“Nem a sexualidade nem a deficiência são falhas a serem corrigidas. São formas da diversidade humana”, afirma Tesser.








