A mesa virou ponto de encontro para quem busca novas conexões. Os supper clubs e os jantares compartilhados reúnem desconhecidos em ambientes intimistas, com propostas que combinam gastronomia, arte e convivência longe das telas.
A tendência recupera uma prática antiga: ao longo da história, refeições coletivas também serviram para criar alianças e aproximar pessoas. Durante o Renascimento, banquetes organizados pela nobreza funcionavam como celebrações, demonstrações de poder e instrumentos de propaganda política.
A experiência como ponto de partida
De acordo com o WGSN, a procura por experiências gastronômicas autênticas acompanha mudanças no comportamento. Festas grandes perdem espaço para encontros menores, enquanto cresce o interesse por novas cozinhas, socialização e relações mais reais.
Fabiana Horta, consultora de negócios de alimentos e bebidas, afirma que a exclusividade está migrando da posse para a presença. Nos novos modelos, o valor do jantar está no anfitrião, no grupo reunido e na experiência construída para aquela ocasião.
O formato é direto: em vez de reservar uma mesa com os amigos habituais, o participante chega sozinho e compartilha a refeição com desconhecidos. O encontro pode acontecer na casa de um chef, em uma galeria de arte ou em outros espaços fora do circuito tradicional de restaurantes.
Em São Paulo, Rodrigo Barradas criou o Sussurro depois de encontrar inspiração na Cidade do México. Português da região do Alentejo, ele viveu em diversas cidades e identificou espaço para encontros voltados a pessoas que deixaram de frequentar baladas, mas ainda querem ampliar suas relações.
A primeira edição do Sussurro aconteceu em dezembro de 2025. As noites não seguem um calendário fixo e já ocuparam galerias de arte e um espaço secreto em Pinheiros. Os participantes preenchem um questionário depois de entrar em contato pela DM do Instagram @susurrosupperclub. O objetivo é formar combinações entre os convidados. Neste ano, estão previstas mais duas edições, na segunda quinzena de outubro e em dezembro, com a possibilidade de um encontro depois do jantar, até as duas da manhã.
Arte, gastronomia e lugares fora do comum
Em Salvador, o relações públicas Isac Hora criou o Arte Bahia, em colaboração com o fotógrafo Gabriel Matos. O projeto une arte contemporânea e gastronomia em experiências montadas conforme a demanda dos clientes, que levam seus próprios convidados.
A iniciativa nasceu em 2024, quando o clube privado Resid procurou Isac para criar experiências durante uma viagem a Salvador. Um dos encontros aconteceu na Casa Ritual, no Farol de Itapuã, e foi batizado de Passar uma Tarde em Itapuã.
As programações também ocupam estúdios, casas de artistas e espaços do Centro Histórico e de Santo Antônio Além do Carmo. Chefs apresentam ingredientes e histórias que levam a Bahia para o prato. Fabrício Lemos, do Grupo Origem, e Nara Amaral, do Di Janela, já participaram dos eventos.
Em São Paulo, o chef Patrick Prado promove os jantares itinerantes La Table duChef, do Pour Vous Gastronomia. A experiência é descrita como São Paulo, Oito lugares, 20 horas. O menu de seis etapas percorre clássicos da gastronomia francesa, enquanto os convidados acompanham de perto a finalização dos pratos.
As datas são anunciadas de tempos em tempos e recebem poucas pessoas por noite. Todas estão esgotadas até o fim de novembro de 2026, mas existe lista de espera. No balcão que separa a cozinha dos comensais, o preparo vira parte central do encontro — e também assunto para a mesa.








