Um manuscrito de 408 páginas preservado na Biblioteca do Vaticano começou a ser decifrado com o apoio de ferramentas de inteligência artificial. Conhecido como Cifra Borg, o documento permaneceu por mais de quatro séculos sem que pesquisadores conseguissem compreender integralmente seu conteúdo.
A obra combina símbolos e diferentes sistemas de cifragem. A única indicação disponível estava em uma inscrição na contracapa, que apontava a presença de informações sobre tratamentos para doenças do corpo humano. A complexidade dos códigos, porém, impedia a identificação precisa do material.
Receitas contra doenças
A análise de parte do manuscrito revelou receitas e métodos de tratamento utilizados para fins medicinais. Entre os exemplos estão preparações contra a disenteria, com recomendações que envolvem o consumo de vinho tinto e o uso de noz-moscada submetida a processos de fermentação.
Os especialistas identificaram dezenas de sistemas de cifragem. Em alguns trechos, símbolos diferentes podem representar a mesma letra. Em outros, determinados sinais parecem ter sido incluídos apenas para dificultar a interpretação. A codificação pode ter ajudado a proteger conhecimentos sobre ervas e tratamentos em um período no qual esse tipo de saber poderia ser associado a práticas ilícitas ou à bruxaria.
Antes das ferramentas computacionais, a busca por padrões exigiria comparações prolongadas entre símbolos, palavras e estruturas linguísticas. Tinta desbotada, páginas danificadas e caligrafia difícil de compreender também aumentam os obstáculos.
Transcrição com inteligência artificial
Uma das ferramentas usadas no estudo foi o Transkribus, sistema desenvolvido para trabalhar com manuscritos históricos. A tecnologia auxiliou no reconhecimento e na transcrição dos símbolos, convertendo o conteúdo em blocos de texto e linhas para análise digital.
O mesmo método foi aplicado a uma carta escrita em 1637 pelo nobre Sigismund Heusner von Wandersleben ao chanceler sueco Axel Oxenstierna, durante a Guerra dos Trinta Anos. Mesmo com intervenções e correções humanas, a ferramenta apresentou resultados considerados relevantes pelos pesquisadores.
A linguista computacional Beáta Megyesi, da Universidade de Estocolmo, e a professora Michelle Waldispühl, da Universidade de Oslo, destacaram o papel da tecnologia na análise de caracteres incomuns. A inteligência artificial reconhece padrões, transcreve sinais e testa possibilidades em velocidade superior à análise manual, mas a interpretação histórica e a validação das soluções continuam sob responsabilidade dos pesquisadores.
A Cifra Borg se soma a documentos históricos codificados que também passaram por técnicas de decifração, como cartas secretas de Maria Stuart. Esses registros revelaram informações sobre conspirações políticas e sobre a relação dela com o filho, Jaime 6º da Escócia, que depois se tornou Jaime 1º da Inglaterra. Pesquisadores estimam que parte dos arquivos históricos europeus ainda contenha documentos cifrados cujo conteúdo permanece desconhecido.









