A literatura francesa passou a enxergar identidade, religião, imigração e liberdade de expressão como sinais de uma crise mais profunda: a dificuldade de uma sociedade em acreditar na própria continuidade. Essa foi a linha central de um debate realizado no último dia 19, em Goiânia, dentro do projeto “Paris é uma festa!”, do Circuito Literário do Sesc-Goiás.
O ponto de partida foi Ernest Hemingway e a Paris do pós-guerra, cidade que recebeu escritores como Fitzgerald, Dos Passos, e. e. cummings e Gertrude Stein. Em 1926, Hemingway publicou “O Sol Também se Levanta”, associado à ideia de uma geração perdida. Décadas depois, suas memórias parisienses seriam reunidas em “Paris é uma Festa”, livro concluído no fim da vida e publicado por sua viúva três anos após sua morte.
O romance e o atentado
A reflexão avançou até 7 de janeiro de 2015. Naquele dia, “Submissão”, de Michel Houellebecq, chegou às livrarias. O romance apresenta uma França do futuro próximo submetida a uma nova ordem religiosa e política. Na mesma data, dois homens armados invadiram a redação do “Charlie Hebdo” e mataram doze pessoas.
A coincidência aproximou literatura e história. Houellebecq imaginou uma sociedade em processo de desorientação; o atentado expôs a violência ligada à intolerância religiosa e atingiu uma comunidade de leitores, jornalistas e colegas.
O debate também recuperou as perguntas de Marcel Gauchet sobre a possibilidade de manter uma comunidade sem transcendência e as de Alain Finkielkraut sobre a preservação de uma cultura sem transmissão. A análise apresentada apontou que a retirada da religião não eliminou a necessidade de crença: parte dessa intensidade teria migrado para a liberdade, a soberania popular e o edifício republicano.
Em “V13”, Emmanuel Carrère acompanha o julgamento dos acusados pelos atentados de 2015 contra o “Charlie Hebdo”, o Bataclan e os arredores do Stade de France. Martim Vasques da Cunha colocou Carrère e Houellebecq lado a lado: um cronista dos fatos e outro autor de uma distopia que ganhou nova leitura após os ataques.
O encontro em Goiânia foi apresentado como uma forma de reconstruir, por meio de livros e debates, um ritual cultural capaz de criar vínculos. A literatura, nessa perspectiva, não prevê o futuro, mas identifica seus sinais antes que eles se transformem em manchetes.








