Na velha Goiás, as margens do riacho do Chapéu de Padre recebiam, ainda cedo, as lavadeiras encarregadas de limpar as roupas de famílias mais abastadas. No final dos anos 1930, sem tanque de cimento ou água encanada, o rio servia para lavar, enxaguar e também colocar a conversa em dia.
Nhá Rita e Dona Luzia trabalhavam entre trouxas, bacias de lata e sabão de cinza. Enquanto esfregavam camisas, lençóis, vestidos e roupas de criança, comentavam o volume de peças do coroné e faziam piada com quem tinha dinheiro, mas não colocava as próprias mãos no serviço.
A rotina era pesada. As mulheres pobres recebiam pouco e passavam horas sobre as pedras, com as mãos ásperas e rachadas. Dona Luzia observou que as roupas dos ricos eram mais difíceis de lavar. Nhá Rita respondeu: “É porque vem acompanhada de orgulho”. Sobre as roupas dos pobres, veio a síntese: “A dos pobres vem acompanhada de remendo”.
Um homem bem vestido apareceu para cobrar cuidado com as roupas do pai. Nhá Rita respondeu que tinha cuidado, mas não podia fazer milagre. Também disse que a água do Chapéu de Padre não sabia o preço das peças e lavava tudo igual. Dona Luzia completou que camisa de coroné encardia como camisa de pedreiro.
Ao final da manhã, as roupas ficaram estendidas sobre as pedras, quarando ao sol. As lavadeiras partiram com as trouxas, o corpo cansado e a dignidade de quem sustentava muito com pouco. Atrás delas, o riacho continuou levando espuma, segredos, injustiças e risadas.








